Poupado Fernando,
será uma maçada dizer-te que o país e o mundo estão em chamas, que acordamos todos os dias a ouvir notícias de milhares de despedimentos, cá e lá. Hoje ouvi o comentador Nicolau Santos dizer que o antigo ministro das Finanças Hernâni Lopes prevê que o descaminho nos faça regredir o nível de vida para algo equivalente àquele de que se disfrutava nos anos 60, quando nós nascemos, o Salazar governava, os emigrantes eram aos milhares, a televisão dava os primeiros passos, um carro era um luxo, os telefones eram fixos e poucos, não havia telemóveis nem internet, o médico era pago por inteiro, tal como os medicamentos, reformas fora da função pública ninguém sabia o que era, só os ricos tinham conta no banco…Vivia-se com o que se tinha, como dizia há dias uma mulher do povo na televisão. Mas se isto tudo não pode deixar de causar perplexidade e muita preocupação, há gestores da coisa pública que cagam de alto para o que aí vêm e gerem o dinheiro, o nosso dinheiro, que não há, excluindo para salvar bancos que enriqueceram à nossa custa e agora ficaram pobrezinhos porque os senhores muito bem pagos que os “dirigem” recebem aqueles salários que sabemos para não prestar contas a ninguém.
Abreviando: como ainda há muita gente séria neste país, um informático encartado gastou um dia de trabalho e 18 euros para fazer o grande favor de nos informar como os organismos públicos gastam os nossos impostos. O Estado prometera fazê-lo, mas não funcionava, como de costume.
O que se falava e temia passou a estar acessível na Internet: ficamos assim a saber que a Admistração Regional de Saúde do Alentejo gastou mais de 97 mil euros num armário persiana, mais duas mesas de computador, 3 cadeiras com rodízios, braços e costas altas; que o Instituto Superior de Engenharia do Porto deu 10 mil euros por um GPS; que o Centro de Saúde Portel gastou 45 mil euros na reparação de duas fotocopiadoras; que a Faculdade de Letras comprou uma carrada de papel higiénico a 64 centimos quandos eles se podem comprar a menos de 20 centimos em qualquer hipermercado, gastando mais de cinco mil euros com o que lhe poderia ter custado pouco mais de 1.500…Mas depois, como quase sempre, há quem contorne a coisa e apresente os valores sem especificar as quantidades: a Câmara de Cascais tornou público que comprou viaturas Toyota por 419 mil euros, mas não diz quantas. Porque será, pergunto eu. A RTP anuncia que gastou 100 mil euros em viaturas, mas a administração acha que os telespectadores não devem saber quantas foram. Nem o primeiro-ministro escapa da lista: fez um contrato de fornecimento de flores naturais para a sua residência para o corrente ano no valor de 19.200 euros (52 euros/dia). Montemor-o-Novo assistiu a um concerto de Boss AC que custou à Câmara local 16 mil euros…
Pois bem, é só ir à internet e ver. Agora as consequências de quem estorrica dinheiro ao erário público, perguntarás tu. Nenhumas. Se o Governo queria que obras até cinco milhões de euros fossem entregues a quem os adjudicadores entendessem, sem consulta pública, que moral há para recusar que uma viagem de ida e volta para a Croácia custe 33 mil euros?
Se o deixaste mal, pior o encontrarás. Continua aí por África…
Um resistente abraço.
António Martins Neves

