Rosa cá, Codé lá

Cúmplice Fernando,

 devo confessar-te que a história de Codé-Di-Dona me emocionou. Verdadeiramente. A parte negativa da sua vida sobrepôs-se à positiva. Acho que erradamente, mas os sentimentos são difíceis de controlar e eu deixo-os andar soltos muitas vezes. Como são os condimentos da vida, defendo que a nossa existência não deve ser sensaborona. Mais doce ou mais amargo, mas que tenha gosto. Tu serviste dois pratos distintos sobre esse homem que fiquei cheio de vontade de conhecer e andar com ele um dia, a repartir a audição dos funanás com as suas sortudas cabras. Acreditando sempre que vai voltar a ser muita mais do que já foi. Não há assim tantos artistas pelo mundo que nos possamos dar ao luxo de os deixar afundar assim no atoleiro. A história de Codê, se bem que diferente, recorda-me a da Dona Rosa, aquela senhora cega que pedia esmola na rua aqui em Lisboa. Num daqueles raros dias de sorte, dois responsáveis de uma empresa discográfica internacional de “World Music” vinham a sair de uma estação do metro lisboeta e ouviram aquela estridente e invulgar voz a cantar uma miscelânia que faz lembrar tudo e não se parece com nenhum género musical, acho eu. Ouvidos treinados, não ficaram indiferentes à voz da Dona Rosa, como ninguém fica. Claro, foi contratada,  gravou discos, deu concertos, estava no caminho do estrelato, depois deixou de se ouvir e há dias (semanas, ou seriam meses?) reencontrei-a na Rua Augusta, a mendigar de novo. Senti um calafrio. Do “hall” da fama para a calçada da rua. As verdadeiras razões do “regresso” não conheço, mas que algo correu mal, como com Codé, disso não tenho dúvidas.
Inconformado que sou e como não acredito no destino, acho sempre que se pode dar a volta à vida. Por essa razão, falar nas nossas cartas  do compositor cabo-verdiano e traze-lo de volta para os palcos ou recordar a história da vedeta da “World music” que suspendeu o estrelato parece-me sempre meritório e deixa no ar a esperança de que tudo volte a ser o que realmente deve. É da mais elementar justiça. Mas como estamos de fim-de-semana e acredito que tenhas coisas importantes a fazer, não te vou ocupar mais tempo com esta carta.

Um forte abraço

António Martins Neves


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