Ronaldo Bank

Humano Fernando,

olhei para a correspondência que trocámos e conclui que nos últimos dias dominaram os animais. Cães à frente, bois logo a seguir. Proponho-me devolver um toque humano a estas prosas. E financeiro também, pena que não seja o anúncio de que me saiu o totoloto ou que tenha sido promovido.
Qualquer uma dessas improváveis situações é como uma gota de água perante o oceano que nos separa. O que me estimula a caneta hoje, Fernando, é a história de um rapaz de 22 anos, português, habilidoso quando pega numa bola, que vai ganhar, só em ordenado - excluindo “trocos” de contratos publicitários e outros biscates - 40 milhões de euros nos próximos quatro anos. Nada menos que um pouco mais de 1.000 euros à hora, mesmo a dormir, claro, irá ganhar o famoso Cristiano Ronaldo.
O jovem madeirense tornou-se no jogador mais caro do mundo e o seu treinador diz já que os históricos Pelé e Maradona têm seguidor e o português estará na passadeira que o levará a sentar-se no cadeirão de melhor jogador do Mundo.
Os jornais por aqui rejubilaram e deram grande destaque à notícia.Afinal a bola é o que nos resta de (fraco) consolo há muito tempo.

É o dinheiro, Fernando. Olha, mas não contes nada disto ao Zezinho quando ele te for aí pedir mais uma moeda para comprar pão para comer com os avós em casa. Concorda se te disser que o melhor jogador do mundo será mesmo um português, mas por favor, e por pudor, não lhe fales em números. Irias contribuir para aumentar o insucesso escolar aí nas ilhas. A solução para ser rico é ter talento nos pés e isso qualquer Zezinho acha que possui. Quando constatar que não vai conseguir ter contas no banco tão gordas que precisam ser geridas por especialistas,nem ter as namoradas louras e espanpanantes que lhe aprouver, acho que já não estarás aí para o reconfortar. Pode ser que nessa altura já tenha conseguido uns sapatos a sério e essa “vitória” o anime.
Será nas ruas poeirentas que as estrelas da bola começam a nascer nesse arquipélagao. Aqui, alimentar o sonho já tem locais próprios, escolas que se fazem pagar, e muito bem, para os pais sonharem vir a ter uma vedeta lá em casa. Tudo uma questão de negócio, Fernando! Criam-se as estrelas e depois é só alimentar as multidões que as seguem, cegas.
Não vamos tirar mérito ao rapaz Ronaldo que o tem, nem condenar o que vai receber porque o patrão americano do clube inglês onde joga acha que ele vale a fortuna que lhe vai pagar.
Mas, Fernando, olhando à nossa volta – e tu podes ver ainda mais do que eu - não achas um bocadinho abusivo distribuir assim de forma tão injusta a riqueza do Mundo?? Eu fico triste, por um lado, indiferente por outro. A minha felicidade não é minimamente abalada pelo dinheiro alheio. Só que, olhando além da sombra, não sei se o futuro irá ser melhor para quem não for estrela. Se as pessoas ditas normais vão ter uma vida mais decente. Tenho muitas dúvidas, Fernando, muitas. Não é que vá começar alguma poupança, mas de palavras vou-me ficar hoje por aqui. E garanto-te que não é para ir ver nenhuma partida de futebol.

Um abraço justo para ti e, olha, dá um também ao Zezinho quando te for aí pedir de comer.

António Martins Neves


0 Responses to “Ronaldo Bank”

  1. No Comments

Leave a Reply





PARCEIROS