Nostálgico Fernando,  

hoje quis reviver um bocado do passado e fui a um local onde não voltava há mais de dez anos. Queria contar-te como era a taberna de António do V., no Alentejo profundo, uma vista do tamanho da alma de quem olha, mas pouco resta do que foram tempos áureos.
 Está lá um retrato, atrás do balcão ao qual raramente alguém se encosta nestes tempos. Vê-se António do V., para aí há uns 20 anos, de tesoura e pente em punho a cortar o cabelo a um cliente. É verdade e tu confirmarás que no Alentejo era assim. Chamava-se áquele estabelecimento uma venda, muito provavelmente porque se vendia lá de tudo. Escanhoava-se a barba,  comprava-se açucar a granel, ia-se buscar o correio, comprava-se bacalhau à posta ou até mesmo um par de botas e, não menos importante, punha-se a conversa em dia com os vizinhos e sabia-se das novidades enquanto se bebia um copo de vinho, de pé, ao balcão.
Era tradição e passava de pai para filho. António do V. foi o último taberneiro-merceeiro-barbeiro da família. Lá está ele no retarato de óculos de ver ao perto para não falhar uma tesourada, o cliente na cadeira de barbeiro, que ainda existe, em redor do pescoço o pano de aparar os cabelos que caíam a cada golpe e um terceiro personagem a testemunhar o momento.
António está com ar convicto, concentrado no corte, como sempre foi. Já não o conheci nos tempos em que escanhoar um daqueles rostos rudes, de barba de uma semana e servir copos de vinho no balcão, separado da barbearia por uma singela porta de madeira, era o dia-a-dia mais normal daquele lugar onde só vai quem quer ou se perde.
Nas horas livres do negócio toda uma labuta esperava lá fora, no meio das oliveiras e dos sobreiros. Galinhas, ovelhas, cabras, porcos, cães de todos os tamanhos e feitios.
A casa está na mesma. Mas as várias portas do monte estão fechadas. Já nem há um cão que ladre. Quando pressente visitas,  António espreita à porta de casa. Alegra-se, anima-se com quem já não vê há mais de uma dezena de anos. Recorda histórias, quer saber como vão, o que fazem e o que fizeram, entretanto, os que chegam. Os forasteiros vêm mortos de sede. “Aqui ainda se mata a sede a quem a tem?”. António nunca foi de alinhar em provocações e corre por dentro a abrir a porta da taberna.  Entra-se e tudo está como dantes, só que mais velho. Algum pó acumulado confirma a falta de uso. O jogo de paulito encostado à parede. A conversa escorre tão bem como os líquidos pelas gargantas ressequidas.
Sem se perceber porquê, acabamos na rua, sentados no poial que todos os montes alentejanos têm à frente. Aparecem galinhas e frangos de todos os lados. Há uma placa farrugenta penduranda num poste que diz “correios e telefones”, mas ao lado já estão as caixas onde o carteiro enfia a a correspondência destinada ao respectivo monte. Já não fica toda junta, na taberna ou na mercearia, divididas por uma parece singela de madeira como a da barbearia.
Só o telefone público se mantém na cabine de madeira donde se ouviam todas as conversas. No tempo em que um segredo nunca se dizia ao telefone dentro de uma taberna. Nem a vida se contava numa chamada roufenha para alguém distante.
As galinhas ganham terreno e vêm bisbilhotar cada vez mais perto, meio míopes. “Que terra é aquela além, senhor António?”.  Alvalade. Uns 30 quilómetros e parece ser logo ali. Até lá um mar de sobreiros verde-escuro. De repente aparece um queijo seco de ovelha e pão: um petisco ali é tão  natural como o vento que corre no final da tarde.
Há um frango pedrês que bate o bando em atrevimento. “Se fosse há uns anos trás já o senhor António estaria a gritar para a  esposa: põe a panela ao lume para aquecer água…” Outra provocação. Mas esta fica sem resposta. Já a teve noutros tempos e há muitos frangos atrás, que terminavam, maioritariamente em molho de tomate. Ah, e nas noites gélidas de Inverno, uma grande lareira, onde se chegava depois de passar da taberna pela mercearia e chegar à cozinha, ajudava a matar o frio que se sentia por fora.
Já foi assim, agora acabou, mas resta-nos a memória, que nunca a percamos, Fernando! Sem ela seremos bem mais tristes e iguais.

Um saudoso abraço.

António Martins Neves
 


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