Resgatei uma galinha

Bem entrado Fernando,

naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e outras inutilidades mais ou menos indispensáveis. Por acaso, porque calhou, algo me chamou a atenção, não me recordo o quê, e dei de caras com esse galináceo que podes observar aí ao lado. Travou-me o olhar, o animal. Entrei, confirmei com a senhora atrás do balcão: “Uma cabaça…”. Era e veio comigo, está aqui em casa.

Nunca me tive por arrelampado com objetos. Ocorre-me, de repente, ter-me acontecido algo parecido há uns anos com uma caneta de aparo, num centro comercial. Mas a galinha meteu-se comigo. O preço? Dez euros! Vou levá-la. Foi negócio impensado quando ouvi a resposta. Constatei que havia mais daqueles frutos a que uma imaginação acertiva e alguns dons artísticos haviam dado quase vida na figura do animal de penas. Mas a primeira não me deixou alternativa. Fui num pé levantar a nota e voltei no outro – a loja não tinha pagamento automático – e dei com a ave embrulhada como uma prenda, com um volume enorme para não lhe descompor a cauda. Quando voltei à rua senti-me contente, animado, até algo orgulhoso, atrevo-me a confessar.

Uma semana depois ia a passar na mesma rua com o meu filho e ocorreu-me mostrar-lhe as outras galinhas que lá haviam ficado. Antes de entrar tive um baque. A porta estava entreaberta e a loja quase vazia, só uns embrulhos e umas caixas pelo chão, ninguém lá dentro. A mulher que me vendera a peça estava do outro lado da rua, dobrada para dentro da mala aberta de um carro, a arrumar nem vi o quê. Seguimos a passos largos. No lugar da quase euforia de dias antes sentia agora alguma angústia. A loja que vendia as galinhas feitas de cabaças fechara, falira, se calhar. Nem me atrevi perguntar. A arte da simplicidade terá sucumbido à crise que tudo ataca.

Terás por aí exemplos infindos da capacidade de humana de com as mãos e talento se produzirem belas obras de arte por quem nunca pensou no que isso é. Aqui vai escasseando a sensação de sermos impressionados pela capacidade criativa de produzir o belo com quase nada. Concordarás que transformar uma cabaça deste modo é singular. Mas depois cria-se um vazio, como se de nada valesse, para nada servisse. O local onde se acedia a esse pequeno requinte fechou, desapareceu, não existe mais. E as galinhas terão ido para outro local, outra loja?

Resta-me agora olhar para este fruto, que continua com as sementes dentro, a fazer de contrapeso para se manter na posição em que a vês. Reparo que tem um ar furioso, como quando as galinhas vivas atacam um gato que lhes ameça os pintos. Esticam-se assim e ensaiam bicadas quase inconsequentes. Vai ficar aqui em casa. Vou dar-lhe um poleiro adequado ali frente à porta da rua, para que quem entre dê logo de caras com a obra e repare bem nela. Merece. Por quem a produziu e por quem a vendeu. Ah, por baixo da cauda está assinado a tinta preta “Rosária”. Parabéns.

 

Um abraço forte, que este ano bem vais precisar de alento a dobrar.

António Martins Neves