Recordar Giacometti (2)
Publicado por António Martins Neves 26 Novembro 2007 em Portugal.
Sensato Fernando,
como sabes que a obra dos homens não se mede em sacos de cimento, quilómetros de estradas ou alturas de prédios, quero deixar-te a continuação de um exemplo a que devemos dar atenção. E é muito simples: fazer o que se gosta, usufruindo desse prazer imenso, esquecendo-nos de nós próprios, naturalmente…Quem nos rodear vai reparar na nossa felicidade e chegarão daí as maiores recompensas de todas. Os dissabores acabarão dissimulados. Muitas vezes, o reconhecimento por ter contribuído para mais um passo, chega só depois da morte. Tenho esperança que mude. Por isso insisto em dar a conhecer-te o que me parece ser um homem que a nossa memória deve reter. Pelo modo como viveu e pelo que daí resultou. O Michel Giacometti merece a distinção. Sem dúvida.
Recordo-te que os textos que te envio estão tal qual foram publicados na altura (há 11 anos).
Um abraço de amigo.
António Martins Neves
Uma obra quase esquecida
Apesar da dimensão do seu trabalho, Michel Giacometti ainda hoje não passa de um ilustre desconhecido para a maioria dos portugueses. O melhor testemunho da sua obra que chegou ao público foram os cinco discos da Antologia da Música Regional Portuguesa, editados em 1963 pelos Arquivos Sonoros, que ele próprio fundou, e que tiveram tiragens de apenas 300 exemplares cada um. Actualmente, os cinco LP´s, com uma original e bonita capa de serapelheira - que representam o melhor das recolhas feitas por Giacometti em Trás-os-Montes, Minho, Beiras, Alentejo e Algarve - constituem autênticas relíquias para os apreciadores da música tradicional portuguesa. Finalmente, mais de cinco anos depois de ter morrido, começam a surgir os primeiros sinais de reconhecimento pelo trabalho do etnólogo corso: o Museu da Música Portuguesa, em Cascais, vai inaugurar na segunda metade de Julho uma exposição na sua actividade de recolha, e, em Setembro, o realizador francês Pierre-Marie Goulet, inicia a rodagem de um documentário que se irá intitular “Polifonias - Pace è Salute, Michel Giacometti”.
A selecção das mais significativas gravações que fez ao longo dos 30 anos que passou em Portugal (cerca de 144 horas) foi vendida à Secretaria de Estado da Cultura em 1985 por 7.500 contos, e está actualmente conservada dos arquivos frios do Museu Nacional de Etnografia, em Lisboa, sem que, dez anos depois, tenha tido qualquer aproveitamento, tanto para divulgação como para investigação.
Sintomático é o facto da única professora catedrática em etnomusicologia que lecciona no curso de Ciências Musicais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Salwa Castelo-Branco, não conhecer o espólio que está no Museu de Etnologia. «Só conheço o que está publicado», confessa a docente, para quem «é urgente tratá-lo (o espólio) e abri-lo aos investigadores».«Lamento que o espólio não esteja copiado nem disponível para consulta», queixa-se Salwa Castelo-Branco. Na opinião desta estudiosa, Giacometti «deu a conhecer aspectos da prática (musical) tradicional que eram desconhecidos. Mostrou que a música é uma coisa íntima das gentes e que tem uma grande importância em todos os aspectos da vida do povo rural». Joaquim Pais de Brito, director do Museu Nacional de Etnologia, justifica o encerramento a que está votada a obra com o facto do material que tem guardado estar «desapoiado de qualquer documentação», o que diminui muito o interesse das gravações, tanto para comercialização como para investigação. O director do museu responsabiliza por esta situação a última mulher de Giacometti e sua herdeira, Leocádia Fernandes (que não quis conceder qualquer entrevista para este trabalho ), dado que o contrato de aquisição das bobines incluia 3.420 fichas sobre os temas constantes nas gravações, que por não estarem prontas na altura em que foram vendidas, deveriam ter sido posteriormente entregues, o que até hoje, uma dezena de anos depois, não se verificou. Esta situação é ainda mais grave por Joaquim Pais de Brito considerar que Giacometti fez a «recolha exaustiva com objectivos de publicação» e esse seu desejo continua por concretizar.
A Secretaria de Estado da Cultura espera ultrapassar este impasse com a criação do Centro de Estudos Musicológicos, uma instituição independente cuja instalação deverá ocorrer em 1997, de acordo com o que prevê o titular da pasta, Rui Vieira Nery. «Todas as recolhas de Giacometti irão para lá», assegura o membro do governo, na perspectiva de que o Centro se venha a tornar numa «base importante para a divulgação e investigação etnomusicológica». Por outro lado, admite também o apoio estatal a uma eventual divulgação da obra, caso haja interessados nisso. E existem. A editora EMI-Valentim de Carvalho assinou com Michel Giacometti, em 9 de Maio de 1989, um contrato que previa a publicação de 16 discos, o que não se viria a acontecer por o etnomusicólogo ter falecido no ano seguinte. Mas chegou ainda a montar o primeiro disco, referente a Trás-os-Montes, cujo «master» se encontra nos estúdios da editora, em Paço de Arcos. O contrato, de que Giacometti chegou a receber um adiantamento de 290 contos para concretizar algumas recolhas, concedia-lhe «absoluto controlo sobre a selecção, ordem das músicas (nos discos), textos e fotos que as acompanhavam», segundo o director da EMI, David Ferreira.
A editora já chegou a ter autorização do Instituto Português de Museus para utilizar as gravações adquiridas pelo Estado, mas David Ferreira achou que, nas actuais condições, não tinha reunidas as garantias para levar por diante o projecto com a qualidade que deseja.«O espólio é um labirinto brutal e não se conhecem algumas das notas que são fundamentais» para acompanhar as edições discográficas, explica o editor, referindo-se às fichas que continuam na posse da viúva. «Estou interessadissimo em concretizar o projecto», garante o director da EMI, mas para isso «é preciso que toda a gente envolvida neste processo se sente à mesa para haver um entendimento», acrescenta, numa referência à viúva e aos responsáveis da Secretaria de Estado da Cultura e do Museu Nacional de Etnografia. Caso se ultrassem estes obstáculos, a EMI entregará a selecção do temas para os discos a um etnomusicólogo. Quase por unanimidade, as opiniões sobre o esquecimento a que tem sido votado o trabalho de Giacometti são extremamente críticas, desde os especialistas até aos amigos do etnólmusicólogo corso. Salwa Castelo-Branco considera que o seu trabalho recolheu «documentos extremamente valiosos que devem estar ao alcance dos estudiosos, dos músicos e do público», tanto mais que «há hoje um grande interesse dos músicos para com a música tradicional e as suas origens».
A etnmusicóloga-docente classifica o trabalho de Giacometti como recolhas -e não como estudos - através das quais ele pretendeu «recuperar os traços arcaicos que ainda existiam na música da altura» e que permitem «fazer a reconstrução histórica» da evolução da música tradicional portuguesa. Rui Vieira Nery atribui à obra de Giacometti uma dimensão «bastante significativa», que se revestiu de «grande importância» por, até à sua altura, apenas serem conhecidos alguns autodidactas que faziam recolhas, ao passo que ele «introduziu métodos de recolha e tratamento extremamente avançados e actualizados». O sucesso que o secretário de Estado da Cultura reconhece no etnomusicólogo deve-se ainda à sua «capacidade de relacionamento muito rica com os informantes. Isso deu às recolhas uma autenticidade muito especial: as pessoas revelaram-se-lhe com um carinho e uma confiança que não era habitual com um académico». Quem exige dos actuais dirigentes politicos «façam alguma coisa» para dar a conhecer o canto do povo que Giacometti registou é o director do Campo Arqueológico de Mértola, o historiador Cláudio Torres, que tinha com o etnomusicólogo um projecto de recolha de música tradicional na regiâo alentejana onde trabalha. «Andamos nos “pimbas” e nada sabemos sobre esse passado musical fantástico que Giacometti registou», considera Cláudio Torres, que defende ainda:«A música antiga, lindissima, de cada região tem que ser divulgada. Existe, ele recolheu-a e deve ser dada a conhecer, até mesmo como homenagem, em vez de se estar a importar ópera e outros espectáculos para as elites de Lisboa».
Também Joaquim Pais de Brito é a favor da divulgação da obra do seu colega etnólogo: «Sou um defensor absoluto de toda a divulgação da obra recolhida», mas, ao contrário de Cláudio Torres, não acredita na renovação musical por esta via, embora admita que possa ser divulgada nas escolas. O antropólogo Jorge de Freitas Branco entende, tal como Salwa Castelo-Branco, que Giacometti tinha «mais preocupação cultural do que científica» com o seu trabalho. «Era mais um colector do quem cientista. Gravava a “voz do povo” que o regime (ditatorial) não queria apreender». A obra que deixou, prossegue Freita Branco, «acaba por ter relevância porque, boa ou má, é o que existe. Não há actividade comparável com a dele na altura». Grande conhecedor e apreciador do trabalho de Giacometti, além de seu amigo pessoal, é Francisco Madeira Luís, um vendedor de discos importados no tempo do antigo regime, «negócio» através do qual conheceu o etnólogo. Quando Madeira Luís ouviu pela primeira vez os discos produzidos pelos Arquivos Sonoros, viu-se na presença de «algo de novo e inesperado. Exótico. Nada do que ouvira se assemelhava àquilo. Era como se sentissemos outra mão ou outro pé». O relacionamento entre os dois prolongou-se, entre outros motivos, pelo facto de ambos nutrirem uma grande paixão pelos discos. Giacometti chegou-lhe a confessar que um levantamento da música tradicional como o que estava a efectuar «só se podia fazer em Portugal. Noutros países, ou já estava feito ou já não era possível fazê-lo»..
Um dia Giacometti pediu a Madeira Luis para ir à sua casa em Cascais para ouvir uma gravação que havia de se tornar um marco na história da música portuguesa. Eram as «Cantigas de Amigo» de José Mário Branco, recentemente reeditadas em CD. A fita tinha sido trazida por Nuno Duarte de Paris, onde José Mário Branco estava exilado na altura. «Ficou logo claro que era um disco esplenderoso e o Michel convenceu-se a editá-lo porque percebeu que José Mário seguia pelo caminho que o seu», relata Madeira Luís.
E do que Giacometti não se terá apercebido directamente na altura era que aquelas canções eram fortemente influenciadas pelos temas tradicionais que descobrira nas suas prospecções. José Mário Branco ouviu falar pela primeira vez do etnólogo corso quando ainda jovem residia no Porto, onde um dia chegou o maestro Lopes-Graça com uma gravação debaixo do braço. «Apareceu-me lá (em Lisboa) um doido que anda por aí a fazer recolhas que eu tenho estado a seleccionar». Foi deste modo que o maestro apresentou Giacometti à tertúlia de jovens a que pertencia José Mário Branco. «Foi como se levasse um murro no estômago», recorda-se o autor e intérprete acerca da sensação que teve quando ouviu os temas gravados por Giacometti. «Quem estava habituado ao Lopes-Graça (de quem a sua tertúlia cantava as “Canções Heróicas”) e leva com o Giacometti fica marcado para a vida toda», reconhece o músico. «O cantor José Mário Branco nunca mais se livrou dessa influência. E não devo ser o único», confessa. As «Cantigas de Amigo» tiveram uma edição de apenas 300 exemplares, que Giacometti sempre se recusou a reeditar por razões que José Mário Branco desconhece. A essa atitude se deveu o facto do compositor ter cortado relações com Giacometti, a quem, aliás, nunca chegou a conhecer pessoalmente. «Apenas nos relacionámos por telefone, carta ou por interposta pessoa», revela. Mas esta situação nunca diminuiu a admiração de José Mário Branco pelo seu editor a «curto prazo». «Giacometti veio reconciliar-nos com a matéria bruta das recolhas. O som que traz é tão forte que resolve as barreiras que nos afastavam dos investigadores» até então conhecidos, explica. «Revelavam a força da tradição e do próprio Povo», o que não acontecia com os investigadores que até então tinham feito recolhas, mas que estavam apenas em livros e «tinham uma atitude apolítica, quase científica», segundo o cantor. «Isso tornava-se suspeito para nós, ligados à resistência, lopes-gracistas, que nos interrogávamos: como é que esta gente que está tão ligada ao povo, não se envolve na sua luta?», conta José Mário Branco.
Com o realizador Alfredo Tropa, Michel Giacometti fez para a RTP a série de documentários «Povo que canta».«Ele já tinha feito recolhas noutros países. Acabou por ficar cá porque as coisas ainda estavam mais no estado puro. Só tinha feito recolhas de som e tirado fotografias. Em Portugal teve a hipótese de lhe juntar a imagem», afirma Alfredo Tropa. Ao todo, estão nos arquivos da RTP cerca de 200 horas de gravações feitas durante dois anos por todo o país, a partir das quais foram montados 37 programas com 25 minutos cada um, exibidos no início dos anos 70, «a uma hora óptima» - antes do Telejonal - como realça o realizador da televisão pública.
Em1975, Michel Giacometti não perdeu a oportunidade que o Serviço Cívico Estudantil (SCE) lhe proporcionou e avançou com um projecto através do qual se propunha registar a literatura popular, fazer o inventário e recolha de materiais e instrumentos relacionados com o trabalho rural, bem como de instrumentos musicais populares.
Chamou-lhe Plano Trabalho e Cultura e reuniu cerca de 150 jovens candidatos à universidade integrados no SCE, um serviço voluntário, mais tarde alargado a toda a população estudantil, que pretendia abolir as diferenças entre o trabalho manual e intelectual e dar uma nova concepção à relação entre a escola e a sociedade, como explicam Jorge de Freitas Branco e Luisa Tiago Oliveira nos dois volumes de «Ao Encontro do Povo». Com as cerca de 1.000 peças recolhidas no levantamento feito em 1975, surgiria depois a ideia de criar um museu, o que só veio a concertizar-se em 1987 com a inauguração do Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, onde está o espólio recolhido. «Através desta exposição faz-se a história de Portugal à altura do 25 de Abril, sobretudo do mundo rural», explica a directora do museu, Isabel Victor.
Utensilios e ferramentas ligadas à produção e manufacturação do linho, em Trás-os-Montes, ou às sementeiras de sequeiro no Alentejo incluem o património do museu, que dada a abundância de materiais, vai mudando periódicamente os temas que apresenta aos visitantes. Mas a forma como a sua obra foi tratada desagradou-lhe. «Vivia profundamente revoltado com as instituições portuguesas por se ver obrigado a a vender o resultado do seu trabalho», considera Isabel Victor. Esta opinião é semelhante à do secretário de Estado da Cultura, Rui Vieira Nery:«Tive a sensação que estava magoado no fim da vida por não darem o devido valor ao seu trabalho. Foi vítima do tempo em que viveu: antes do 25 de Abril pela desconfiança do regime e depois pela explosão de grupos (de suposta música tradicional) que não tinham qualquer rigor nem fundamento científico no seu trabalho». Apesar disso, Giacometti nunca se deixou tentar pelo dinheiro e acabou por aceitar vender a entidades portuguesas o seu espólio. Depois das gravações, vendeu também (por 3.500 contos) a colecção com mais de 200 instrumentos musicais e a biblioteca com cerca de 4.000 volumes (5.000 contos) ao Museu da Música Regional Portuguesa, em Cascais. Embora tivesse tido, do estrangeiro, propostas tentadoras e bem mais compensadores do ponto de vista económico. Uma instituição belga chegou a oferecer-lhe pelas suas recolhas musicais o triplo dos 7.500 contos que a Secretaria de Estado da Cultura lhe pagou em 1985. Quis que a obra, como ele, ficasse para sempre em Portugal. «No meio do povo português que tanto amei».
Militante comunista sem cartão
Michel Giacometti nunca foi militante do PCP, mas teve deste partido o mesmo reconhecimento que os seus filiados: no dia do funeral, o caixão foi coberto com a bandeira do PCP e o elogio fúnebre foi feito pelo dirigente Octávio Pato. Giacometti considerava-se um «compagnon de route» dos comunistas. «Estou fora do PC mas não contra. Este partido pertence ao património do povo português», afirmava em 1990 em entrevista ao «Público». João Honrado, que conheceu o etnólogo corso depois de sair do Forte de Peniche, em 1970, confirma:«Nunca foi militante do PCP, mas na prática agia como tal». Nuno Duarte, outro amigo, considera também que «estruturalmente, era um marxista».
Octávio Pato já não se recorda precisamente das palavras que proferiu nos momentos antes do caixão de Giacometti descer à cova no pequeno cemitério de Peroguarda, mas, num esforço de memória, afirma que lhe terá elogiado «o valor do trabalho de pesquisa (etnomusicológica), uma coisa excepcional de um homem que não era português, mas amava Portugal e o povo português».
Sobre o seu relacionamento com o PCP, o dirigente do partido classifica-o como «um comunista em toda a acepção da palavra. Só não tinha cartão de militante», embora os estautos permitissem que o fosse, dado que admitem a filiação de estrangeiros. Octávio Pato considera que terá sido para evitar ser preso que não se filiou antes do 25 de Abril de 1974 - seria expulso para França no caso de ser detido por razões politicas - mas desconhece os motivos que não o levaram a inscrever-se no PCP após a queda da ditadura. Apesar disso, insiste, «era um militante altamente dedicado e qualificado. Chegou a subscrever um documento do PCP (que não especifica), impensada ou inadvertidamente, que lhe foi apresentado por pessoas que não tiveram em conta o seu estatuto», o que lhe poderia ter causado problemas com as autoridades. Ao contrário de outras opiniões, Octávio Pato não reconhece que Giacometti fosse uma espécie de correio entre membros da oposição e do PCP nas diferentes regiões do país que visitava frequentemente.«Não usava as viagens para fazer propaganda. A sua actividade cultural e musical era a melhor militância que poderia dar ao PCP».
Em 1972, Giacometti protagonizou, com Nuno Duarte, um episódio que, a ser descoberto pelas autoridades de então, lhe teria certamente custado a expulsão do país. Deslocaram-se os dois ao cemitério de Quintos, uma aldeia dos arredores de Beja, para fotografar a campa de Catarina Eufémia, a camponesa assassinada pela GNR que se tornou num símbolo para os opositores à ditadura. Apesar do coveiro ter indicações para não permitir que ninguém se aproximasse do túmulo, numa altura em que o funcionário estava ausente, tiraram uma fotografia à sepultura que o PCP utilizaria depois como referência propagandistica contra o regime. Mas, anteriormente, fora detido pelo menos duas vezes. Uma delas foi na sequência das manifestações contra o regime, em Lisboa, tendo sido libertado no dia seguinte, tal como outros estrangeiros, com pedidos de desculpa, devido a pressões internacionais, que levaram o facto a ser noticiado pela imprensa estrangeira.
Na outra, foi em Alcoutim, onde uma noite foi bater a uma porta para pedir auxílio, dado que se acabara a gasolina do seu Citroen dois cavalos. Os moradores recearam a sua presença e a então Guarda Fiscal do posto local acabaria por o deter, libertando-o no dia seguinte, após a intervenção do presidente da câmara local. Em pleno regime democrático, Giacometti envolveu-se directamente em iniciativas do PCP, nomedamente na Festa do «Avante!», quando montou com o arqueólogo Cláudio Torres uma exposição de etnografia no certame do orgão oficial comunista, em 1980, e, três anos depois, com João Honrado, participaria na campanha para as autárquicas.
Por essa altura andavam os comunistas «obsecados» em conquistar Ourique ao PSD, a única câmara que lhes impedia o pleno no distrito de Beja. A facilidade que Giacometti tinha de se relacionar com as gentes do campo tornou-se num bom trunfo para conseguir alterar o sentido de voto, tradicionalmenete conservador, dos pequenos propietários da região. Era um tipo de campanha que exigia uma grande subtileza, pois caso fossem denunciadas as reais intenções dos propagandistas, a mensagem não passava. «Andávamos de monte em monte e cada um ficava a falar com um grupo de pessoas, de modo a que eles não percebessem que estavam a ser convencidos a mudar o sentido de voto», recorda João Honrado. Nunca será possível determinar qual o contributo que Giacometti deu na alteração do sentido de voto dos serranos alentejanos, mas o certo é que naquelas eleições o PCP conseguiu pela primeira vez ganhar a câmara de Ourique aos sociais-democratas.



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