Inspirado Fernando,
deliciado fiquei com a forma como conseguiste transpôr para aí o que te faz sentir feliz aqui. Eu não consigo escrever-te uma carta a essa altura, com essa nobreza de espírito, desperta com tamanhas sensações. Venho mais uma vez alarmar-te, falar de preocupações, coisas que correm mal e que gostaria que melhorassem. E de novo a cimeira entre África e a União Europeia, mas desta vez vista pela televisão pública (RTP), suportada pelo dinheiro dos contribuintes. Fiquei com a ideia que é um espelho do regime, em vez de ser o espelho do país. Tu avaliarás. Talvez esteja errado, mas lá que deixa grandes dúvidas, lá isso deixa…
Quinta-feira, Telejornal apresentado pelo jornalista José Alberto Carvalho. O folclore não escapa. Lá vem a tenda que o homem que domina a Líbia há 38 anos depois de um golpe de Estado fez questão de trazer para Lisboa. O apresentador chama-lhe “o líder há mais tempo no poder em África”. A seguir vem Robert Mugabe, o “ditador” do Zimbabué, como lhe chama Carvalho. É claro que são os dois facínoras, que mataram e matam para continuarem no poder. O líbio até mandou derrubar um avião ocidental cheio de civis. Mas isso parece não caber na memória curta da RTP. O outro, que por acaso até foi eleito, é que é o mau da fita. Será, como aquela figura patética que prefere uma tenda supostamente dos beduínos do deserto líbio em vez de um normal quarto de hotel para dormir. Marketing é com ele. Mas o frio deve pesar-lhe nos ossos. “Fashion”, titularão as revistas do social…
Num regime democrático como queremos que seja o nosso, olhamos assim de forma diferente para dois efectivos tiranos, responsáveis pela morte de milhares de pessoas e pelo sofrimento de milhões? E chamamos líder a um e ditador a outro? Isto é jornalismo numa televisão independente ou é outra coisa? Terá a Entidade Reguladora da Comunicação visto este Telejornal? O provedor da RTP vai seguramente pronunciar-se…Entre dois verdadeiros monstros, um é um “líder” quase eterno à maneira norte-coreana, segundo a perspectiva da televisão pública de um país da União Europeia, o outro, que começou por ser uma referência para os países ocidentais e assumiu a presidência (sufragada depois em supostas eleições) de um país que se tornou nos mais caóticos e miseráveis do mundo, apesar das suas riquezas.
Se fosse um desfile de moda, ainda se podia dizer que o líbio Muahmar Kadhafi trouxe a Lisboa a nova linha de Verão: um pano de tenda que nem resiste ao calor nem ao frio do deserto e muito menos às humidades do Forte de S. Julião da Barra. Basta ver os aquecedores a óleo nas fotografias e os sofás emprestados pelo governo português…
Mugabe já andou por cá aos abraços com presidentes da República e primeiros-ministros. Agarrou-se à cadeira, correu com os ingleses que tornavam o seu país numa potência agrícola em África e apresenta-se como o lado odioso da cimeira, aquele sobre quem os fotógrafos vão disparar e os redactores escrever exaustivas peças sobre o que não disse e o que não fez.
Kadhafi saírá como uma estrela, que matou muitas dezenas de europeus e milhares de conterrâneos mas tem petróleo para vender. Estou a escrever isto e a colocar-me na pele de quem apresentou o Telejornal da RTP na quinta-feira, Fernando. Mas é isso o que se espera de um jornalista. Ou também já temos o “real journalism” na nossa televisão pública, paga pelos nossos impostos, na senda do que a diplomacia nacional chama “real politik” em vez de negócios puros??
Quero acreditar que foi uma falha grave, uma distracção, mas que não foi propositada… Porque se foi, assumam-na de uma vez por todas e tornem públicos os critérios pelos quais a RTP avalia a política internacional.

Um solidário e admirador abraço.
António Martins Neves

PS: Como te disse anteriormente, aquela história do inglês que desapareceu numa canoa não foi nada assim. Levaram cinco anos para o prender e descobrir que tinham sido enganados. Nunca desconfiaram de nada nem investigaram o suficiente. Deram por adquirido o que lhes foi dito e agora…saem humilhados desta forma.


2 Responses to ““Real Journalism” na RTP?”

  1. 1 ricardo

    It is what it is.(Shakespeare)

  2. 2 Guinevere

    Caríssimos,

    Infelizmente já não acredito em falhas graves no jornalísmo português. Infelizmente, já só acredito que a maioria do jornalismo e dos seus profissionais são e estão manipulados, manietados, amordaçados e agrilhoados… acabando por se transformar em manipuladores, manietadores, amordaçadores e agrilhoadores da população que deveriam ajudar a tornar esclarecida e pensante.
    Mas, quando temos uma classe política e económica a quem não interessa uma população esclarecida e logo pensante e crítica!!!… Quando temos governantes para quem o que interessa é uma massa acrítica que se perde nas tricas dos realitty shows e telenovelas deste país!!!!…
    Estamos a voltar em força ao famoso “Fado, Futebol e Fátima” e o pior é que as pessoas parecem estar a gostar disso.
    Os portugueses são neste momento um povo (e que me desculpem as excepções) de acomodados, que prefere remoer entre dentes e culpar os políticos enquanto se passeio pelos corredores dos Colombos às compras de Natal e se vai endividando.

    Um beijo para vocês
    (haja quem pense e quem se revolte)