Rádio Saudade

www.fotodependente.comAbatido Fernando,
encontro nas tuas últimas cartas uma ponta de saudade que tem vindo a emergir a cada dia. Da terra, daqueles que te fazem muita falta, como costumas dizer, o que considero perfeitamente natural. Quero atenuar-te esse amargo de bom português e vir hoje falar-te de um grande homem, que, espero, vai fazer diminuir a enormidade deste mar todo que separa os dois países. Chama-se Rafael Correia e tem, reconhecida e publicamente, o melhor programa de rádio da actualidade e (há vários anos) aqui em Portugal.
Passa na Antena 1 aos sábados de manhã e repete nas madrugadas de segunda-feira. Chama-se Lugar ao Sul e conta-nos magníficas histórias que o autor, um professor do ensino secundário que vive em Faro, recolhe no seu gravador, no Alentejo e Algarve, pela voz dos seus protagonistas. Quase sempre gente simples, a viver no campo, mas que acumula saber que Correia sabe trazer cá para fora com um sucesso incomparável. Depois é uma delícia sentirmo-nos transportar para um monte da Serra do Caldeirão ou para a árida região alentejana e ouvir as histórias, as artes, a singularidade que cada pessoa representa e o autor consegue “mostrar-nos” da forma mais natural que conheço.
Não terá sido por acaso que as suas reportagens conquistaram anos e anos a fio o prémio de Melhor Programa de Rádio emitido em Portugal. Tinha eu começado a aprender a arte de ser jornalista, no final dos anos 80, como tu, e já Rafael Correia me era apresentado como “o” exemplo do repórter de rádio. Como ouvinte assíduo, esse sublinhar só me veio confirmar a razão porque não me importava de acordar cedo aos sábados para ficar a deliciar-me com aqueles bocados da história da rádio feita em Portugal.
Mais tarde quis perceber melhor qual era a “estratégia” usada pelo autor e realizador e falei várias vezes com ele ao telefone. É uma pessoa entusiasmante, que nos transmite uma paixão enorme pelo que faz, embora sempre com a maior humildade do mundo. Quando lhe propus acompanhá-lo um dia numa das suas deslocações, delicadamente disse-me que não. Calculo que dezenas de outros jornalistas e estudiosos o tivessem tentado fazer. Respondeu-me, como garantiu  fazer sempre, que quem quiser admirar o seu trabalho que..o ouça! Nem a estudantes a e aprendizes das universidades se dispõe a palestras. Que nada tem a explicar. Tudo está naquelas gravações singulares e singelas, mas cheias de alma, de sentido, de história e da face que perdura deste nosso país, sempre ignorada, mas que sobrevive porque é cultura.Recomendo-te particularmente o programa que passou este sábado. Vais gostar, não tenho dúvidas. E o tempo vai passar mais suave e menos agreste até à próxima viagem.

Um abraço para matar saudades.
António Martins Neves  


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