http://lusoinculto.blogspot.com/Perspicaz Fernando,
só posso concluir que estavas adivinhar o que iria dizer o Presidente da República quando me desafiaste a largar tudo e ir para aí. Anda uma pessoa a agarrar-se ao que pode para arranjar forças e continuar a enfrentar as contrariedades que nascem aqui debaixo de cada pedra e vem o Chefe de Estado dizer que vai comemorar o “dia da raça”? Era só mesmo o que estávamos a precisar: o mais alto magistrado da Nação a referir-se ao Dia de Portugal como o fazia o ditador Salazar. Bolas, o homem foi eleito, estamos em democracia e ele vem falar em raça? A palavra dita duas vezes, para que não restem dúvidas. Estou sentado à espera da explicação de uma afirmação que seria grave mas desculpável se saísse da boca do respeitoso empregado do come-em-pé ali do centro comercial. Mas de alguém que é o representante máximo do Estado português??? Assim terei mesmo que ir para aí…
Ouve-se e não se acredita: Cavaco Silva evita falar sobre o bloqueio dos camionistas na véspera do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas com o argumento de que só falava do “dia da raça”. Alguma imprensa, sem que se perceba porquê, voluntariou-se logo para pagar a conta e suportar as dores alheias, fazendo-nos crer que tinha sido uma “gaffe”. Não sei o que os leva a concluir isso, porque o autor da expressão não assumiu que se tivesse enganado nem outra coisa qualquer. Das duas uma: ou quis mesmo remeter para algo que nunca existiu e apenas representa o pior da história nacional ou enganou-se e não foi capaz de assumir o erro. Indesculpável, em qualquer dos casos. A quem é que ouvimos dizer “nunca tenho dúvidas e raramente me engano”? E quem foi que vimos atafulhar a boca com bolo para evitar responder a uma pergunta incómoda de jornalistas?
Deixa-me tentar perceber o que significa a palavra raça. Só me ocorre o cavalo lusitano, o perdigueiro, o podengo, o cão de água…Atribuído a pessoas remete para momentos pouco abonatórios do género humano. Hitler usava-o até à exaustão para electrizar os alemães , Salazar também queria fazer crer em algo que nunca houve em Portugal. Raça, mas qual raça, Fernando? Isso define-se como, é o quê? São os descendentes dos visigodos, mais dos celtas, dos romanos e dos berberes todos misturados e felizes? Explique quem o afirmou, que os portugueses precisam saber em que estava a pensar.
Como uma caricatura nunca vem só, os partidos que apoiaram a eleição do Presidente da República (PSD e CDS) nada disseram e foi noticiado que só a esquerda (leia-se Bloco de Esquerda e PCP) é que se indignou com a afirmação. Do governamental Partido Socialista, que continua a querer fazer crer que é de esquerda, ouviu-se um silêncio ensurdecedor. Quem cala, consente! Vou também continuar à espera que digam, como de costume, que estão “completamente de acordo com as palavras do senhor Presidente da República”.
De uma boca que não se cansa de falar em responsabilidade, modernidade e muitos outros “ades”, seria bom que também começasse a utilizar – e praticar – a palavra frontalidade. É que não basta parecer, é preciso também ser. E se o Presidente da República em quem a maioria depositou o voto se acha dispensado de esclarecer o país, em quem poderemos acreditar ainda? Vamos seguir os seus exemplos?
Feito o desabafo, não escondo que o convite é quase irrecusável. Se dependesse só da minha vontade, ainda esta semana me terias a bater aí à porta. Entre muitas razões, por ter a certeza que não iria ouvir dos políticos caboverdianos a malfadada palavra que ressoou aqui numa data solene como o Dia de Portugal, 33 anos depois do fim da ditadura.

Um inconformado abraço.

António Martins Neves


7 Responses to “Raça? Qual raça?”

  1. 1 Miguel Correia

    A raça Portuguesa!! O problema dos portugueses é o de rejeitarem a sua identidade. Só assumimos a nossa *identidade* com orgulho quando se trata da bola. Em qualquer outro contexto, vem ao de cima o absurdo do políticamente correcto e dos traumas do fascismo.

    Basta olharmos para o lado. Os nossos vizinhos Espanhóis são famosos pelo seu orgulho nacional exarcebado. Tendo orgulho, eles não são racistas. Não sendo racistas, eles não têm complexos estúpidos e rídiculos com a sua raça. Eles têm uma sociedade mais avançada e são mais felizes. Não são descriminatórios, não andam a maltratar judeos, ciganos ou quaisquer outras raças, mas têm orgulho na sua identidade… na sua raça.

    Sim, é a raça portuguesa da qual me orgulho pertencer, não obstante alguns portugueses complexados que a rejeitam com medo de parecer racistas… Uma enorme confusão de conceitos.

    Deixem-se de complexos!

  2. 2 ruiafonso

    A Raça é humana !
    É precisamente nesta frase que todos nós deveríamos mentalizar-se aquando parafraseamos a palavra Raça !
    Contudo acho um pouco racista a entoação do nosso mais célere e mais alto Magistrado político da Nação Portuguesa, não deixando ao mesmo tempo de negar as contrariedades a que nos levou a conjuntura política Mundial !

    Saúde

  3. 3 Camisa_Azul SLB

    A raça portuguesa sempre foi a indo-europeia branca.
    Essa tem que se preservada.

  4. 4 António Martins Neves

    Oh caro “camisa azul” anónimo!
    Identifique-se e explique-me onde está sustentada essa sua teoria dos indo-europeus quando presumo que viva num país onde já reinaram bárbaros, fenícios, romanos e muçulmanos, entre outras gentes. E que isso deve ser motivo de orgulho. A raça humana distingue-se dos outros humanos pela capacidade de pensar e, consequentemente, evoluir no pensamento. Jamais no regredir às trevas da idade média ou aos tempos tribais.
    Cumprimentos.

    António Martins Neves

  5. 5 Miguel Correia

    Espécie humana!

    Tal, como existe a espécie canina, decomposta em raça bulldog, em raça caniche, etc. Existe a espécie humana, decomposta em várias raças.

    Estou a imaginar o absurdo da seguinte conversa: “- De que raça é o teu cão? – Seu preconceituoso, é a raça canídea!!”.

  6. 6 António Martins Neves

    Comparar os homens com os cães é sempre um bom princípio de conversa. Tudo ficou dito em escassas linhas. Estamos conversados!

  7. 7 Miguel Correia

    Tem razão… Devia ter comparado com macacos… Assim apoiava-me no Darwinismo, um conceito ainda demasiado avançado para muita gente.