Querem que acreditemos na Justiça

Diário de NotíciiasFelizardo Fernando,
lembraste de ter falado no caso da adjudicação do sistema de transmissões para as forças de segurança e Protecção Civil? E de que o negócio tinha custado quase cinco vezes mais do que a comissão nomeada para aconselhar a adjudicação recomendara? Pois bem, o então ministro da Administração Interna que assinou o contrato com o grupo para o qual trabalhara antes nem foi ouvido pelo procurador-geral-adjunto encarregue de investigar se havia ilegalidades no negócio. O magistrado não encontrou matéria criminal para acusar. Foram-se 400 milhões de euros do erário público, mas isso não tem importância nenhuma. Temos que confiar na Justiça…
Daniel Sanches, ministro da Administração de Interna no Governo de Santana Lopes, adjudicou o desejado sistema de comunicações três dias depois de saber que ia deixar o cargo, porque os partidos que sustentavam o executivo (PSD e CDS) viram o PS conquistar a maioria absoluta. Também procurador-geral-adjunto, embora com licença de longa duração desde 2001, Sanches trabalhara para o grupo com quem fechou o negócio das transmissões e para o qual voltou depois de sair do Governo. Pelo meio foi director-adjunto da Polícia Judiciária e dirigiu os serviços secretos (SIS).
Sem ponta de dúvida, o magistrado que conduziu o processo, Azevedo Maia, com a mesma categoria de Sanches no Ministério Público, abdicou de ouvir o colega durante os três anos em que “investigou” o processo de adjudicação do tal sistema de comunicações, conhecido por SIRESP. Nem o ex-ministro nem qualquer outra testemunha. E também não sentiu necessidade de acompanhar qualquer das buscas realizadas pela Polícia Judiciária..
Ora se a um procurador-geral-adjunto não se levantam dúvidas sobre um negócio que custa cinco vezes mais ao Estado que representa do que foi recomendado, quem poderá suspeitar que não houve transparência? O comum dos mortais não poderá ser. Não ouviu os protagonistas do negócio? É porque não achou necessário. Se trabalha e é pago para defender o bem comum e assim agiu é porque está tudo bem na história. O Estado perdeu aproximadamentee 400 milhões de euros? É verdade. Ninguém foi responsável pelo ruinoso negócio? Ninguém. O procurador-geral-da República, Pinto Monteiro, que garante não tolerar a impunidade, escusou comentar o processo? Escusou. O inquérito apresentou conclusões claras e transparentes? Não! Com este exemplo, não me perguntes se acredito na Justiça portuguesa, Fernando! Poupa-te a ti e a mim. Não me irrites!

Um furioso abraço.

António Martins Neves