Que bom haver gente assim…
1 comentário Publicado por António Martins Neves 1 Novembro 2007 em Portugal.
Frontal Fernando,
eis-me regressado a este prazer de te contar o que me move e mais o que não me passa despercebido. Neste caso para te falar de um contador de histórias, figura pública, um sucesso a escrever. Vendeu 300 mil exemplares de uma só obra, “Equador”, e agora “ameaça” repetir a proeza. Já percebeste que te falo de Miguel Sousa Tavares, a que muita gente gosta de apelidar de controverso pelo simples facto de ter opinião própria e não abdicar dela, ar austero e verbo fácil mas ajustado. Deves ter percebido há muito que gosto de falar de pessoas, de personagens, de gente que faz o mundo dar um passo só que seja. Outros dão autênticas corridas,como é o caso. Pode ser só pelo divertimento que proporcionam, pela originalidade das patifarias inocentes, pelo modo invulgar de estar na vida. Mas queacrescentem algo ao que já sabemos. Miguel Sousa Tavares, para mim, vai à frente neste grupo das pessoas de quem gosto de falar.
Digo-te que troquei algumas palavras com ele pessoalmente uma vez, algo de profissional, mas que já não me ocorre, e telefonei-lhe em mais umas escassas alturas quando a sua opinião era importante, não me perguntes porquê…não me recordo. Sempre em trabalho. Não é um conhecido meu, posso dizê-lo. Nem precisa, nem tem que ser. Ah, na declaração de interesses, deixa-me afirmar, para que fique claro, que foi ele a decidir publicar na revista Grande Reportagem, que então dirigia, a história da “República dos Aivados”, de que te falei noutra carta, depois do chefe de redacção ter recusado o texto alegando que não tinha interesse para a publicação.
Uma coisa sempre lhe reconheci, enquanto pessoa e profissional (jornalista): carácter, muita coragem e um amor infinito à liberdade. Características que distinguem as pessoas vulgares das outras. E, infelizmente, nesta terra por onde andamos, poucos são os que conseguem conquistar o estatuto para poderem fazer aquilo de que realmente gostam e afirmar o que verdadeiramente pensam.
Ontem vinha de viagem sózinho, numa jornada de trabalho, quando tropecei numa bela entrevista com o homem, na rádio TSF. Voltei a dar por bem empregue o tempo e, naquele caso concreto, a possibilidade de ouvir ideias nobres em vez de uma qualquer lista de músicas de top. A conversa era a propósito do seu novo livro “Rio de Flores”.
Deixo-te algumas frases do autor que registei quase de memória: “Escrever bem é escrever simples, a escrita deve ter uma musicalidade própria”; “não estou aqui para dar roupa velha aos leitores, estou aqui para dar a minha melhor camisa, o meu melhor fato”; “se escrevesse só para mim, não publicava”.
Mas houve mais controverso: “Nunca tive uma crítica negativa [na rua] ao ‘Equador’”. E porquê? “O meu livro é bom e as pessoas gostaram dele”. Coragem ou arrogância? Se ouvires a entrevista, percebes que a resposta encaixa no primeiro substantivo.
Fui um dos pelo menos 300 mil que leram o seu primeiro grande sucesso editorial e asseguro-te que debulhei o volumoso “Equador” nuns quatro dias durante umas férias de Verão em Odeceixe. Gostei, recomendei e continuo a aconselhar. É uma obra com alma, mas simples, que chega a todos, não só aos ilustrados, aos críticos, Lê-se e aprende-se, qualquer pessoa. Nada de calhamaços para intelectuais. Muito trabalho de investigação, suor a rodos e saiu um belo romance histórico. Espero que o novo seja melhor. O autor merece e todos ficamos a ganhar quando um escritor se preocupa com o leitor e não consigo próprio. “Sou orgulhoso, mas não sou vaidoso”. Pudera…Pena não poder ir agora mais uns dias para Odeceixe. Depois contava-te!
Um abraço e belas leituras.
António Martins Neves



António… eu também gosto do Sousa Tavares, gosto do desassombro, gosto da forma hábil como é coerente no papel de personagem que criou enquanto “artista do equilíbrio”, mas não me venha com tretas do género: ninguém me disse mal do livro na rua. Como se isso fosse um barómetro aplicável. Mas admito uma coisa: o “escritor” Sousa Tavares tem apenas um problema. Jamais poderá dar como boa uma crítica de rua, porque é difícil à rua distinguir o opinador de que se gosta(porque a sabe toda neste metier) do escritor da moda. Porque o é, de facto, sendo que ser da moda não significa ser mau, bem pelo contrário. Eu, por mim, passo ao lado. Hà tanto para ler que não posso correr o risco de me deixar iludir. Por ser da rua. Daqui a uns anos, já prometi a mim mesmo, vou comprar os dois livros numa qualquer feira do livro por cinco euros cada. Creio que para me regalar com a leitura.