Qu’bele caixetinhe, Joe!

Hello Fernando,
não sou dado a balanços anuais. Respeito e admiro muito quem os faz, mas nunca perdi mais de cinco minutos (de cada vez) a matutar se um ano me correu bem ou mal, quanto mais a avaliar terceiros sem ser por razões profissionais. Tive um professor que passava o dia de anos fechado em casa, a avaliar os últimos 365 dias como se a vida fosse uma mercearia com o deve o haver. Os erros são para corrigir, as boas atitudes para multiplicar. Mas como em tudo, há excepções e no ano passado houve um cavalheiro que diz deixar marca por aqui. A coisa não lhe correu (tão) de feição como desejava, mas tornou-se incontornável para quem tem e ou fala sobre muito dinheiro: Joe Berardo para os amigos e conhecidos, ou José Manuel Rodrigues Berardo, de sua graça!
Fez uma espécie de ameaça de querer comprar o Benfica, depois de ter andado enrolado em OPAs de bancos, conseguiu meter a sua valiosíssima colecção de arte no Centro Cultural de Belém nas condições pretendidas, entre outras proezas mediáticas.
Preparava-se para acabar o ano em beleza quando houve um tiro que saiu para trás e o chamuscou. Nestas guerras de quem compra quem nos bancos e de quem vai mandar em que coutada, Joe sempre teve uma palavra a dizer porque vai a todas…as caçadas. Deve-lhe ter ficado da África do Sul, terra de safaris, para onde partiu da Madeira com uma mão atrás e outra à frente e voltou rico e imperial.
Principal accionista particular do BCP (os maiores do que ele são empresas), bateu-se com galhardia quando correu que familiares de alguns administradores da casa haviam beneficiado de perdões de juros e mordomias dignas daqueles grupos que achamos só existirem na Sicília. O Joe não se conteve, e ele próprio sentido-se violentado na sua quota de dono de uma banco assim, fez barulho, deu a cara e acabou a ir confessar o que lhe ia na alma ao procurador-geral da República. O homem não é de se ficar, Fernando.
Todo o vento lhe corria de feição quando alguém deve ter achado que devia deitar-lhe fogo a um rabo-de-palha. E veio à baila que ele tinha obtido, com outros investidores, um crédito da Caixa Geral de Depósitos, para reforçar a sua posição no BCP. Acontece que o presidente da dita Caixa é apontado para presidente deste banco, numa altura em que a casa começa a abanar por todos os lados e, dizia a Visão há dias, temia ir abaixo devido a uma guerra surda entre Maçonaria e Opus Dei.
Berardo, que desconheço em que campo alinha, mas inclino-me mais para os senhores que usam avental nos cerimoniais secretos, pareceu não hesitar um segundo e apoiou Santos Ferreira, presidente da CGD para presidente do BCP. Não se viu a nódoa na camisola de Joe porque ele anda sempre de preto, mas apareceram dúvidas no ar se moralmente era aceitável que o presidente de um banco emprestasse dinheiro a pessoas para reforçarem posições accionistas na outra instituição, a qual o emprestador acabaria por se abalançar a dirigir. Nada de ilegalidades, dizem os especialistas. E Berardo foi segunda-feira dizer na SIC-Notícias que deve 200 milhões de euros à Caixa em empréstimos, mas isso são peanuts (no caso dele tremoços). Acredito que seja uma courela para quem tem um império. Mas a ambição mata e o dinheiro parece que ainda mais. A determinada altura, o investidor, como se apresenta, que ficou a falar uma mistura patusca de português com sotaque madeirense e inglês da África do Sul saiu-se com um “hello!?” para o entrevistador, Mário Crespo. Foi só um toque da aparente espontaniedade numa matéria em que ele já deu cartas e o Gato Fedorento explorou com a piada do costume na história do caixetinhe de Joe Berardo. Milhões para cá, milhões para lá, um dos homens que mais sobressaiu em Portugal no ano passado – e não estou a avaliar se bem ou mal – começou o ano sem chama, a defender o amigo emprestador que agora tem que enfrentar um adversário que afinal o PSD queria ver no lugar dele na Caixa, Miguel Cadilhe, ex-ministro das Finanças quando Cavaco Silva era primeiro-ministro.
Vou parar porque tu, a esta hora, já estarás a dizer que é muito dinheiro, muita confusão e nós fazíamos melhor continuar a falar de aves raras e dos riscos que elas correm. Pois eu respondo-te que Joe, também Berardo, vem de uma terra onde a freira-da-Madeira, é um pássaro em enorme risco de extinção, como são as cagarras ou as calhandras de Cabo Verde. Tanta ave faz-me até lembrar aquela divisão de lenga-lenga onde se diz que os animais de penas se dividem em pássaros, passarinhos, passarucos, aves de rapina e cucos. Qual deles precisa de um caixetinhe?

Um raro Abraço.

António Martins Neves