Caro Fernando,
brincavas há dias com o atónito António, mas é com esse sentimento que te escrevo hoje. Ou talvez perplexo. Ou mesmo indignado. Triste, desencantado. E, antes de saber a tua ou outra opinião, ninguém me tira que estou carregado de razão. Então não é que num concurso de televisão consideraram que o ditador Salazar é o “melhor português de sempre”??
Deve ter-te chegado aí a notícia, aí mesmo onde está um dos bastos exemplos do “bem” que ele trouxe ao país e à humanidade, esse resort chamado Tarrafal. Isso era um campo de férias para onde mandava os que discordavam dele, não era? Tinham umas sobras para pensar, faziam umas tertúlias, refrescavam-se no Atlântico e depois voltavam para casa, não era?
Pois não! Morriam “grelhados” e à fome por não pensarem como António de Oliveira Salazar, sofriam e eram mandados torturar pelo homem que chegou ao poder para “endireitar isto”, levou quase 50 anos e não conseguiu, só abdicou quando um dia caiu de uma cadeira para não mais se levantar e nos deixou de herança o país mais miserável da Europa Ocidental.
Fico triste por ao meu povo se perguntar em quem mais se revê e ele responder com o nome do que pior nos tratou, humilhou, dirigiu como uma bando de indigentes, que não podiam pensar, muitos nem aprender a ler nem a escrever.
Mandou os nossos pais para uma guerra completamente estúpida e despropositada, onde morreram ou donde voltaram doentes, incapacitados, loucos muitos de tanto penar, a lutar pela terra dos outros quando toda a Europa já tinha concluído há longos anos a descolonização. De que valeu morrer por Angola, Moçambique, Guiné ou S. Tomé (aí, em Cabo Verde, pelo bem e pelo mal, os efeitos não foram tão nefastos)? Nada! Olha como estão! Olha a herança que deixámos! Olha o que lhes ensinámos!E por cá, quase metade de nós foi viver para o estrangeiro, emigrados nos anos 60, para fugir de um futuro que nem saberiam se conseguiriam ter, se sobreviriam cá.
Imagine-se os alemães considerarem o Hitler o mais destacado entre eles, os espanhóis o Franco ou os italianos o Mussolini.
Como deves imaginar, têm-se escrito toneladas de papel, proferido milhões de palavras sobre a matéria. Uns tentando reduzir a importância desta monstruosidade, que foi só um programa de televisão, que pode ter havido batota na votação por meios electrónicos, muitos tentando explicar como foi possível, alguns parodiando o facto de um ditador ter vencido as primeiras eleições em que “participou” quase 40 anos depois de ter morrido e bastantes desiludidos, como eu, com a falta de memória que ataca assim um povo.
Resta-me ainda, para agravar, o programa ter sido produzido pela estação que todos nós suportamos com os nossos impostos. Podem argumentar que a ideia foi comprada lá fora, que os resultados foram sempre polémicos, que as pessoas é que escolheram…Não me conformo. O mínimo que podem fazer é ir às prateleiras buscar uma relíquia que lá têm – espero que os responsáveis não estejam esquecidos – chamada “Povo que canta”.
É uma belíssima série rodada pelo realizador Alfredo Tropa e pelo etnomusicólogo Michel Giacometti, produzida no início dos anos 70 do século passado. É a preto branco, mas passem-na em horário nobre, por favor! Assim vão mostrar a quem ache que Salazar foi o melhor português de sempre como o ditador de Santa Comba obrigava as pessoas a viver. O que a sua grande visão do mundo acrescentava ao quotidiano de miséria que grassava por este país. Mostrem-na sem medo de chocar, porque é isso que faz falta: mostrar um povo a que, fora das cidades, só quase restava a alma.
Ah, quse me esquecia do argumento de que não era corrupto. Talvez não fosse. Mas o séquito que o rodeava e sustentava e o espírito que incentivou na sociedade nadavam em corrupção como a história atesta. E entranhou-se-nos na carne, pelos vistos, a par da mesquinhez, da inveja, da mediocridade, que grassam hoje abundantemente por aqui.
Estou triste, Fernando… Dizem que temos a memória curta, mas será assim tão limitada que acabamos a adorar o pau que nos vergastou?? Será verdade aquela do “quando mais me bates, mais gosto de ti”??
Desculpa o desabafo, mas as cartas e os amigos também servem para isto…
Cumprimentos, daqui da terra dos esquecidos.
António Martins Neves

