Avisado Fernando,
saí de casa este domingo depois de ter a tua carta e a pensar nos dois assuntos: na fome e no Euro 2008. “Obrigações” paternais levaram-me para a Penha de França, o popular bairro onde deparei com a imagem que te envio e me pareceu fazer a síntese dos dois temas. Uma casa decrépita, a pedir obras de recuperação há dezenas de anos, onde se destaca a bandeira nacional como símbolo do apoio à selecção portuguesa que disputa o Europeu de Futebol. É uma ilha no meio de prédios novos ou recuperados. Parece uma casa franca, e acredito que o seja. Janelas e portas abertas, um canário a cantar desalmadamente na gaiola. Lá dentro deve viver gente humilde mas franca, que quando solicitada não vira a cara. Agora é com a selecção, assunto de importância irrelevante, que não vai além do consolo interior. Devem ter acorrido a outras causas quando foram solicitados. Não devem virar a cara. Morar ali, isso sim, é uma questão que importa. Melhor: sair dali ou transformar aquelas paredes a morre por reboco e tinta e as latas ferrugentas a sugerirem uma marquise é que era vencer um campeonato. E vidros novos, claro. E o que aquelas pessoas devem ter investido na vida. Repara nas molas a esticar a bandeira, as toalhas a secarem sem acumularem cheiros, a casa a arejar, o canário protegido do sol como convém. Tresanda a dignidade.
Este dia de quase nada fazer levou-me depois a um lugar menos “carregado”, mais solto, divertido, preguiçoso mesmo. Em Junho, todos os domingos à tarde decorrem concertos de jazz no jardim do Campo Grande, um dos maiores – e com potencialidades para ser dos melhores – espaços verdes de Lisboa. Fui lá pela segunda vez. A minha cultura jazística é quase nula, mas o improviso musical faz planar qualquer um. Esparrameirado na relva, nuns pufes que o patrocinador disponibiliza para se beber uns refrescos adequados que a mesma marca oferece. Mando-te junto um registo desse momento. Nada melhor para desintoxicar da bola. Gostei de ver o jogo, a equipa esteve à altura, deu espectáculo e mostrou ser de facto melhor que a Turquia. Só tem que continuar assim. Ponto final. Chega-me, até ao próximo jogo. O que me apetecia hoje eram mesmo belas sombras, água para descansar o olhar e uns acordes para restabelecer as energias. Um bom domingo.
Um abraço folgazão.
António Martins Neves.

