Projecto de romance num meio-dia de Verão
Publicado por António Martins Neves 30 Julho 2007 em Portugal.
Encalorado Fernando,
hoje apetecia-me enviar-te uma simples foto, com uma pequena legenda, para que não restassem dúvidas da importância daquela imagem, mas não tinha máquina comigo. Prefiro registar os momentos marcantes na memória própria, mas há alturas em que o registo perpetua um grande momento e ajuda-nos a tornar mais credíveis as nossas palavras. Foi isso que senti hoje, na quase plana terra alentejana.
Passava pouco do meio-dia, o termómetro marcava 43 graus à sombra e eu viajava para Norte, distrito de Évora acima. Estrada razoável, algumas curvas a separar rectas longas e eis senão quando me deparo com um cenário digno de filme, não daqueles de que te falei na última carta, mas algo a atirar mais para uma história do realizador sueco Ingmar Bergman, que não “vendiam” no cinema de António P..
Havia uma autocaravana na berma da estrada, longe o suficiente, sem risco para quem circulava. Mais afastada da estrada ainda, uma mesa de campismo, duas cadeiras e um casal sentado nelas. Dois copos em cima da mesa. Tudo debaixo de um frondoso sobreiro.
A auto-caravana tinha matrícula holandesa…
Apeteceu-me parar, mas perseguia outro carro de incursores pelo braseiro, pelo que ficar por ali uns minutos iria atrasar planos traçados. Queria só ter uma ideia do que sentiam ali aqueles dois seres vindos do, pode-se dizer sem exagero, frio da Europa quase do Norte. Um forno, um sufoco? Nada disso! Aquele cenário transparecia felicidade: que chova ou que vente, ou até mesmo que estejam 43 graus à sombra, nada nos demoverá de parar debaixo desta magnífica árvore, sair do ar condicionado da auto-caravana e fazer um brinde à vida. Só podia ser esta a justificação. Fiquei sem saber, mas não podia ser muito distante a explicação.
Os milhares a correrem para as praias, a molharem-se, ou a refugiarem-se em locais menos agrestes para o corpo e aqueles dois seres ali, debaixo do chaparro. Eram um casal feliz seguramente, que nem se preocuparia com a bebida que ficaria a escaldar em dois tempos. Se calhar era um magnífico chá. Um chá no Alentejo, a 43 graus, ou uma limonada para enfrentar os horizontes trementes com tamanho calor para uns quase nórdicos.
Costumamos ver gente assim, viajantes apreciadores de belos momentos de intimidade com a natureza, mas isso é comum nas arribas do litoral, ao entardecer, a esperar pelo pôr-do-sol. Nos locais mais esplenderosos há quase sempre uma autocaravana parada e duas pessoas sentadas numa mesa ao fim da tarde. Repara quando viajares junto à costa para sul, Fernando.
Agora no meio da planície alentejana, à sombra de um sobreiro, é singular. Se houvesse justiça nos prémios do turismo, aquele casal teria que receber o prémio de viajantes do ano. Conhecer é aquilo mesmo: sentir tudo e disfrutar o mais possível do que há. Mesmo que seja o ar irrespirável na beira de uma estrada, num dos dias mais quentes do ano, sem dramas, tranquilamente, num local inóspito tendo como testemunha um orgulhoso sobreiro. Confirmei hoje mais uma vez mais que há retratos que nem muitos milhares de palavras conseguem descrever. Mas também há sentimentos que uma máquina não regista. E pareceu-me ver lá um bem grande: a felicidade.
Um veraneante abraço.
António Martins Neves



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