Professor de economia “chumbado”

Foto JNRecordado Fernando,

esta semana foram apresentados os números de abortos feitos aqui em Portugal legalmente desde que a lei deixou de penalizar as mulheres e veio-me logo à memória o “hit”, ou “sound byte”, que mais marcou a campanha do referendo pelo lado dos que defendiam o “não” e foi proferido por um “distinto” professor universitário da nossa praça: se for “liberalizada” a interrupção da gravidez a pedido da mulher, o acto vai-se vulgarizar como os telemóveis.

Deves estar recordado, porque esta frase terá corrido meio mundo e foi preferida por um docente de Economia, especialista, e já agora um conservador entre os conservadores, chamado João César das Neves. Poucas vezes me apercebi de tanta demagogia concentrada, tanto populismo gratuito. Interroguei-me mesmo como é que alguém que tem um nome a defender, que escreve artigos nos jornais, não parou 30 segundos para pensar antes de afirmar tamanha… até me falta o termo, mas o mais adequado deve ser mesmo aberração.

Estou mortinho por ler o seu próximo artigo de opinião, agora que se soube que o número de abortos legais nos primeiros seis meses desde a entrada em vigor da lei que o despenaliza é 60 por cento das previsões oficiais, ultrapassando ligeiramente os 6.000, sou levado a concluir que César das Neves se enganou nas projecções. Mau para um professor doutor de Economia.

Para um homem habituado a lidar com números, projecções e estatísticas, não abona nada a seu favor. Há mais telemóveis do que portugueses, dizem os estudos de mercado, o que equivale a dizer que são mais de dez milhões de aparelhos em uso. Foi (ainda é) uma moda. Exibir um telemóvel de último modelo ainda é considerado por quem o usa como um “significativo” indicador de estatuto social.

Das Neves sabe disso. E devia saber que estava a passar um atestado de menoridade à civilização de que faz parte, em particular às mulheres, acusando-as de, perante a despenalização do aborto, desatarem a correr para os hospitais a fazer abortos como quem vai ao centro comercial trocar de telefone. De uma leviandade assim não tenho memória. Nem de um insulto generalizado de tamanha dimensão a uma sociedade inteira. Para mim foi, Fernando! Deixou-me a pensar que perspectiva tem um doutor em economia, informado e supostamente vivido, para avaliar os seus semelhantes desta forma. Achei que ele vivia noutra terra, apesar de até o ver com frequência à espera do autocarro junto à Cidade Universitária. Com que óculos veria ele a realidade portuguesa? O que dirá aos alunos sobre o mundo que nos rodeia. Fiquei francamente preocupado.

Só que o mundo e Portugal não são o que César das Neves imagina e agora vai ter que se haver com a realidade. Ele que, indirectamente quero crer, preferia a situação anterior das interrupções de gravidez clandestinas, vê-se agora confrontado com uma realidade bem diferente. Os números indicam que os abortos que estão a ser realizados legalmente a pedido da mulher são pouco mais de metade dos 20 mil anuais que previam as autoridades públicas de saúde. Como quase toda a gente sabe, menos o professor universitário mais os seus seguidores ou apoiados, o aborto é um assunto demasiado sério para ser colocado ao nível da chacota e de frases irresponsáveis atiradas sem o mínimo sentido de responsabilidade. É um drama com que mulheres, e homens, se vêm confrontados, uma decisão terrível, muitas vezes marcante para uma vida. Ele achava que não e a realidade confirmou que estava completamente errado. Se fosse uma frequência, teria chumbado com uma nota humilhante.

Ou serei eu que estou errado e distraído e a venda dos telemóveis caiu quase para zero?

Um sensato abraço.

António Martins Neves


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