Professor de economia “chumbado”
fechado Publicado por António Martins Neves 10 Fevereiro 2008 em Portugal.
Recordado Fernando,
esta semana foram apresentados os números de abortos feitos aqui em Portugal legalmente desde que a lei deixou de penalizar as mulheres e veio-me logo à memória o “hit”, ou “sound byte”, que mais marcou a campanha do referendo pelo lado dos que defendiam o “não” e foi proferido por um “distinto” professor universitário da nossa praça: se for “liberalizada” a interrupção da gravidez a pedido da mulher, o acto vai-se vulgarizar como os telemóveis.
Deves estar recordado, porque esta frase terá corrido meio mundo e foi preferida por um docente de Economia, especialista, e já agora um conservador entre os conservadores, chamado João César das Neves. Poucas vezes me apercebi de tanta demagogia concentrada, tanto populismo gratuito. Interroguei-me mesmo como é que alguém que tem um nome a defender, que escreve artigos nos jornais, não parou 30 segundos para pensar antes de afirmar tamanha… até me falta o termo, mas o mais adequado deve ser mesmo aberração.
Estou mortinho por ler o seu próximo artigo de opinião, agora que se soube que o número de abortos legais nos primeiros seis meses desde a entrada em vigor da lei que o despenaliza é 60 por cento das previsões oficiais, ultrapassando ligeiramente os 6.000, sou levado a concluir que César das Neves se enganou nas projecções. Mau para um professor doutor de Economia.
Para um homem habituado a lidar com números, projecções e estatísticas, não abona nada a seu favor. Há mais telemóveis do que portugueses, dizem os estudos de mercado, o que equivale a dizer que são mais de dez milhões de aparelhos em uso. Foi (ainda é) uma moda. Exibir um telemóvel de último modelo ainda é considerado por quem o usa como um “significativo” indicador de estatuto social.
Das Neves sabe disso. E devia saber que estava a passar um atestado de menoridade à civilização de que faz parte, em particular às mulheres, acusando-as de, perante a despenalização do aborto, desatarem a correr para os hospitais a fazer abortos como quem vai ao centro comercial trocar de telefone. De uma leviandade assim não tenho memória. Nem de um insulto generalizado de tamanha dimensão a uma sociedade inteira. Para mim foi, Fernando! Deixou-me a pensar que perspectiva tem um doutor em economia, informado e supostamente vivido, para avaliar os seus semelhantes desta forma. Achei que ele vivia noutra terra, apesar de até o ver com frequência à espera do autocarro junto à Cidade Universitária. Com que óculos veria ele a realidade portuguesa? O que dirá aos alunos sobre o mundo que nos rodeia. Fiquei francamente preocupado.
Só que o mundo e Portugal não são o que César das Neves imagina e agora vai ter que se haver com a realidade. Ele que, indirectamente quero crer, preferia a situação anterior das interrupções de gravidez clandestinas, vê-se agora confrontado com uma realidade bem diferente. Os números indicam que os abortos que estão a ser realizados legalmente a pedido da mulher são pouco mais de metade dos 20 mil anuais que previam as autoridades públicas de saúde. Como quase toda a gente sabe, menos o professor universitário mais os seus seguidores ou apoiados, o aborto é um assunto demasiado sério para ser colocado ao nível da chacota e de frases irresponsáveis atiradas sem o mínimo sentido de responsabilidade. É um drama com que mulheres, e homens, se vêm confrontados, uma decisão terrível, muitas vezes marcante para uma vida. Ele achava que não e a realidade confirmou que estava completamente errado. Se fosse uma frequência, teria chumbado com uma nota humilhante.
Ou serei eu que estou errado e distraído e a venda dos telemóveis caiu quase para zero?
Um sensato abraço.
António Martins Neves


