Tropical Fernando,
terminou hoje um dos invernos mais chuvosos de que há memória no país. Oficialmente, começou a primavera e o tempo confirma: está sol, céu limpo, 18 graus de temperatura. Se a natureza cumprir, o que já não é garantido, os cucos devem ter chegado hoje daí, de África, e já se devem fazer ouvir aqui, pelos bosques. A água dominou nos últimos três ou quatro meses, mas agora remeteu-se às evidências.
Mais habituadas à seca e ao dito bom tempo, as pessoas aqui já largam água pelos olhos (não são só lágrimas) e até as pedras da calçada parecem ainda reter chuva. Uma fartura! Até a barragem do Alqueva atingiu a capacidade máxima e ia deitando por fora, uma espécie de milagre para descrentes. Um autêntico mar de água doce. Houve as desgraças que sabes: temporais e ventanias, as enxuradas que levaram meia Madeira para o mar e mataram mais de 40 pessoas. Tudo porque, dizem os meteorologistas, o anti-ciclone que costuma passar os invernos nos Açores este ano deslocou-se um pouco mais para Norte e deixou passar o mau tempo que vem do outro lado do Atlântico. Temos uma garantia, pelo menos: não vai haver falta de água este ano, talvez haja menos incêndios e a natureza retribua a generosidade dos céus.
Depois de tanto quilómetro cúbico de água despejado sobre as cidades e os campos, recordei-me há dias que não tenho guarda-chuva. Esqueço-me deles, perco-os, pelo que desisti de comprar tais utensílios. E consegui que a chuva só me molhasse a cabeça uma ou duas vezes desde o Verão. Ando na rua, pouco é certo, quase não uso carro no dia-a-dia mas escapei-me a indesejáveis encharcamentos sem saber muito bem porquê. Lembrei-me que em regiões tropicais, se calhar aí também, sucede o mesmo: ninguém sabe o que são guarda-chuvas. Em Belém do Pará, na foz do Amazonas (Brasil), onde ouvi cargas de água fazerem-se anunciar ao longe com ruído, disseram-me que essas protecções são dos objectos mais raros na cidade. As pessoas encostam-se às paredes, ficam ali abrigadas debaixo dos beirais, à espera que passe e pronto.
No meio de todas as consequências de um Inverno dos antigos, retive um episódio indicador de que nem só casas e estradas em leitos de cheia podem causar as desgraças a que assistimos. Num sábado, ao final da tarde, quando chovia desalmadamente por todo o país, estava a trabalhar e tocou o telefone mais uma vez: duas cegonhas “desalojadas”. Não fora inundação, claro. Aparentemente foi mesmo a idade do ninho, a água e o vento que empurraram aquele emblemático e gigantesco monte de paus entrelaçados e pastos do alto da torre da igreja, antes da missa das 18. Era um dos ícones, parte da imagem associada a Figueira de Castelo Rodrigo, a vila fronteiriça perto de Guarda vitimada pela intempérie. Disseram os técnicos da câmara local que o ninho, a que chamaram “centenário” e teria seguramente muitas dezenas de anos, pesava mais de uma tonelada (MIL QUILOGRAMAS!). Deixou uma cratera no telhado da igreja que faz juz ao peso, mas nenhum crente se magoou. Do casal de cegonhas nunca mais ninguém falou. Já devem ter construído outro ninho, que é tempo de começar a trabalhar para tazer descendência ao mundo e chuva é água. E é a vida…
Um enxuto abraço
António Martins Neves


só pro registo,,o inverno inda n acabou,hoje choveu que se fartou,,e no final do dia de trabalho..bem que quis ver o mar , fazer uma caminhada na praia.mas as nuvens eram tao escuras..que fui o mais rapido possivel pra casa.e agora,,,chove,,chove.chove