Ele “noventa e…”, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal “à antiga”. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras são mesmo para ele.
Sem gravata mas com lenço ao pescoço, óculos de sol, um chapéu quase informal, casaco, sapatos de cabedal brilhantes, tudo em tons de castanho, a condizer. São os dois muito pequenos, abaixo de metro e meio seguramente, um casal de classe média-alta provavelmente já com bisnetos. Vão assim pelo passeio, com aquele ritmo de quem não tem pressa para nada, quando surge pela esquerda a terceira figura de uma história sem fim. É igualmente baixo, inclinado tal e qual, mas pelo vestir percebe-se que nunca pode dar tanta importância à aparência. Anda com as mãos atrás das costas, seguras uma na outra. Percebe-se que são calejadas.Usa um boné aos quadrados, botas de untar, não há ali roupa a condizer. Mas conhecem-se. Os homens avançam um para o outro, a mulher pelo braço fica um pouco mais para trás, enquanto eles pegam na mão um do outro e dão ares de estarem a apertar com força. O que veste a rigor diz alto da sua baixeza: “Há quanto tempo! Mas porquê?, porquê…? porquê…?” E sacode com veemência o braço do outro homem dando força física à saudade implícita no cumprimento. Não se ouve a resposta, mas percebe-se que a atitude tem eco. Não se visitarão em casa, mas conhecem-se de há muitos anos. Ficam a conversar menos que uns cinco minutos. Quantos são? “Noventa e…” – o número sai sumido da boca do homem aperaltado, mas não deixa dúvidas. Aqueles dois metros quadrados de calçada portuguesa estavam a suportar uns 250 anos, contas por baixo e coisa rara. Uma honra, mesmo que para pedras.
Uma mulher muita gorda sentada na esplanada do passeio largo fala a gritar com uma voz fina e contraditória que deve deixar com os nervos em franja os dois cães que tem presos pela trela. Os animais respondem no mesmo tom, ladram desalmadamente a tudo o que mexe. Ali está porque os cães se parecem com os donos. Misturam-se os ladros com os gritos numa confusão que ninguém consegue ignorar.
A mistura histérica com ar de normal ofusca por completo a conversa dos dois homens e da mulher que assiste. Termina como começou: longos comprimentos, até á próxima. O casal segue a sua viagem sem pressa e o homem do boné dá meia volta e aponta em direcção ao café-pastelaria: “Vou buscar o meu almoço”.
Um calmo abraço
António Martins Neves

