Poeiradas

Desempoeirado Fernando,
antes ser que parecer, diz o ditado. E eu acho mais natural essas nuvens de poeira que deixam douradas as ilhas aí do que as ondas de perfume que depois se vem a constatar serem um mau odor, uma promessa sem sustentação, uma palavra sem sombra de honra.
Tento compartilhar esse desconforto de ter pó a entrar por todo o lado, essa contradição entre o belo e o desesperante de ver o mundo num tom de ouro invulgar e depois sentir o corpo invadido por algo que não se vê e mal se sente: o pó do deserto do Sahara que a todos atormenta, que, carregado de electricidade estática, pára barcos e aviões, deixa um país em câmara lenta.
Mas há pior, Fernando! Já constatei umas ondas de perfume aqui bem piores. Engano puro. Mais tarde quando passa o odor fica a sensação que quem o usou não se lava. Isto é tudo figurado, claro. Só que tu falas de relativizar as coisas e eu prefiro levar com o pó do deserto do que com as poeiras falsas dos eleitos.
Rapidamente, porque vais receber esta minha carta num dia de folguedo, deixo-te dois exemplos: o Governo de Portugal prometeu que todas as crianças do ensino básico iriam estudar em igualdade de circunstâncias no ensino público. Brilhante! Acabe-se com os factores de distinção que marcam o resto da vida das pessoas. Todos a entrar à mesma hora, todos a aprender a mesma matéria, quem precisa a ter apoio, música e inglês para todos, acompanhamento na escola para fazer os trabalhos de casa e os pais descansados no trabalho até irem buscar os filhos, sem hipotecar o rendimento lá de casa…Bonito, não é? Se fosse verdade…Conheço eu e testemunho em parte. Há crianças de nove anos a entrar na escola às oito da manhã, a cair de sono, muitas a precisar de apoio educativo sem o ter, horas de estudo acompanhado tornadas em recreio “vigiado” por pessoas cheias de vontade mas aparentemente recrutadas nos centros de desemprego, em vez de professores como fora anunciado. Não te parece que criaram uma nuvem de perfume quando se chega a este ponto? Quando deviam entrar todos na escola às nove horas, como foi anunciado, estabelecimentos há no centro de Lisboa que não têm capacidade de responder a uma cidade deserta de gente e têm que colocar crianças a entrar às 13,30 da tarde. É assim que se pratica a grande promessa da aposta na educação, uma versão completamente adulterada e empoeirada, Fernando?. Relativizando, claro. E não há banhos que nos valham. Por fora ou por dentro. As marcas serão eternas.
Por último, deixa-me realçar-te outra onda de perfume lançada sobre este país “perfumado”. Há mais de um ano, o chefe do Governo, senhor (espero que lhe agrade este trato, o mais digno que conheço) José Sócrates, anunciou que todas as escolas do país estariam ligadas à internet  por banda larga. Constatou-se que não era assim, criou-se uma celeuma enorme, a verdade veio agora à tona de água pela voz de um secretário de Estado: o Governo está a tentar ligar todas as escolas do país através da dita banda larga…Queres maior poeira que esta, Fernando? Quando se dissipam estas nuvens que “cegam” as pessoas, fica tudo claro como quando misturas água e azeite…

Um abraço e um sopro.
António Martins Neves


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