Pobre mãe, que tristes filhos tem
fechado Publicado por António Martins Neves 7 Abril 2008 em Portugal.Amargurado Fernando,
sinto nas tuas últimas cartas uma mistura de deslumbramento pela beleza de que tens desfrutado e impotência para evitar o desastre natural e arquitectónico que se adivinha por aí e que tens andado a testemunhar. É universal, a lei do dinheiro. Quando se esgota um filão, há que procurar outro, e por aí fora, até secar a “vaca” por completo. E ninguém aprende com os erros dos outros. A falta de argumentos para defender o indefensável leva os políticos que colaboram na derrocada a erguer o “desenvolvimento” como uma bandeira. Nunca ouvi nenhum especificar o que isso significa. Só os ouço lastimarem-se, muitas vezes assumindo as dores alheias, quando o mar derruba bares que jamais deveriam ter sido construídos em cima das dunas ou uma chuvada forte inunda casas e destrói a vida das gentes. Pelo que vejo à volta, vai continuar a ser assim. Por mais que se fale, se escreva ou se grite. Mais construção, mais impostos – é o lema que todos perseguem, mas que nunca nenhum tem coragem de assumir.
És de um país onde abundam as barbaridades urbanísticas, impera o desordenamento do território, onde os supostos planeadores nunca disfarçaram o modo casuístico com que agiram, na maioria das vezes “estimulados” pelo apetite de investidores sem escrúpulos. Alertado por isso, confrontas-te com uma realidade muito semelhante, onde poderiam ter sido acautelados os erros cometidos pelos outros, incluindo aqui em Portugal.
Os governantes e autarcas daí nunca terão visitado ou sequer visto fotografias do litoral português, com o Algarve em grande destaque, antes de aprovarem os projectos ditados pela voracidade dos investidores que aterraram em Cabo Verde e acreditaram ter descoberto mais uma galinha dos ovos de ouro? Então qual será a razão porque deixam arrasar assim a sua terra? Conseguirão continuar a dizer que gostam dela?
Um dia li um texto da poetisa Sofia de Mello Breyner, escrito há 44 anos, que até enviei a um amigo técnico numa autarquia, recomendando que o desse a ler ao presidente da dita. E acho mesmo que todos, incluindo candidatos e aqueles que já são autarcas deveriam lê-lo obrigatoriamente. Depois emoldurá-lo e colocá-lo em cima da secretária, bem atarrachado, para serem obrigados a conviver com ele todos os dias. Fala nele sobre a simplicidade do gosto e o modo como o que fazemos deve ser harmoniosos connosco e com o meio que nos rodeia. Contra a arrogância traduzida nos mamarrachos importados e a falta de sensibilidade para entender o que se passa à volta.
O gosto (ou a falta dele) tem aqui um aspecto preponderante, mas quem sabe fazer contas e não é assessor ou avençado de nenhum investidor imobiliário terá ao seu alcance dados que lhe permitem concluir que um dos erros do dito desenvolvimento é colocar os ovos todos no mesmo cesto. Foi assim aqui, está ser assim aí. E depois, quando os países ricos entram em recessão e os seus habitantes ficam sem dinheiro para viajar como fazem habitualmente? Despedem-se os empregados ou pede-se subsídios aos governos ou…as duas coisas?
Será tão difícil entender que levar milhares de pessoas para zonas ambientalmente sensíveis, como felizmente abundam ainda aqui e também aí, é destruir um património sem valor calculável e que jamais poderá ser recuperado? E se os projectos fossem de menor dimensão, com menos impacto, para menos gente? Não haveria mais qualidade e menos devastação?
Uma vez caí na asneira em ir de férias para o Algarve de que se fala. Não fiquei a dormir em nenhum arranha-céus em cima da praia. Dormia num daqueles casarios acolhedores a que se chama turismo rural. Uma casa baixinha, no meio da serra, afastado da confusão, bom poiso para aves a precisar de repouso. Só que como gosto de praia, lá passava metade do dia em bichas para conseguir chegar perto do mar e estacionar o carro num terreiro poeirento, estender a toalha num metro quadrado à hora da torreira e voltar para casa a meio da tarde e tentar conseguir desfrutar daquele ar serrano, o que só conseguia quase ao pôr-do-sol. Estava a menos de 15 quilómetros do mar…Valia-me que comia bem por perto, e evitava as pizzas e os hamburgers que sustentam as centenas de milhares de almas que se pelam por uns dias naquele suplício e regressam a casa mortinhos por contar aos vizinhos, se acaso a televisão não surgir pelo caminho, que estiveram no Algarve e carregaram as baterias do estatuto social.
Tu preferes uma semana de férias a beneficiar de um lugar pacato, a apreciar uns bons petiscos, respirar bons ares, encheres os olhos com paisagens magníficas, dar uns mergulhos numas águas calmas e no sossego ou comer batatas fritas quatro vezes ao dia, beberes cerveja da mais barata, seres roubado a qualquer hora e acordares de noite com o roncar vindo do apartamento ao lado?
Não tenho dúvidas…
Aqui, já vamos neste registo. Aí, talvez ainda estejam a tempo de evitar. E pelo que contas, uma estratégia mal planeada aí tem consequências ainda mais devastadoras do que aqui, porque a natureza é mais pobre e a capacidade de reagir às agressões muito reduzida. Se eu fosse muito ingénuo diria que gostaria que quem manda e decide aí lesse esta carta. Assim, talvez eu ainda conseguisse ir visitar esse Cabo Verde de que me falas e com que me tentas. Vou apostar na esperança, que é o que mais nos resta.
Um abraço com muita convicção.
António Martins Neves

