Pesadelo

Humanista Fernando,

imagino-me a andar numa rua muito movimentada de um país da África Ocidental ou mesmo Oriental. Cruzo-me com mulheres bonitas, aquele ébano quase indiscritível, com vestidos de padrões alegres e de uma criatividade difícil de equiparar. Parece uma situação encantadora, não é? Pois…Só que, muito provavelmente, metade delas ou a grande maioria foram impedidas, em criança ou adolescentes, de serem verdadeiras mulheres. Amputaram-nas sexualmente, tirando-lhes esse factor fundamental na vida de qualquer humano e tornaram-nas objectos para os homens. Nunca hão-de saber o que é prazer e muitas vão morrer quando ficarem grávidas, depois de sofrerem horrivelmente. Grande pesadelo.

Caiu-me há dias no “prato” um trabalho sobre mutilação genital feminina e fiquei a saber que há 135 milhões de mulheres no mundo que não conseguem ter prazer sexual porque lhes amputaram em crianças, ou na pré-adolescência, parte do clitóris, o clitóris completo, mas também, em muitos casos, os lábios pequenos da vagina ou até a cozeram, deixando-lhes apenas um orifício para urinar e sair o sangue do período menstrual. Tudo isto integra-se num ritual de passagem e de integração social a que são sujeitas as raparigas de países africanos que professam a religião islâmica. Por proximidade, o caso que mais nos toca é o da Guiné-Bissau. Fiquei a saber, por estudiosos da matéria, que já houve casos de mutilação aqui em Portugal praticados por mulheres mais velhas guineenses em raparigas filhas ou mesmo nascidas lá que para cá imigraram. Agora, ao que me disseram, os pais levam-nas ao “castigo” lá.

Trata-se de um atentado puro e duro contra a integridade física de alguém e a que jamais poderão ser sujeitas pessoas antes da idade em que poderão decidir sobre o seu corpo e fazer o que lhes apetecer, em adultas. Uma questão indiscutível de violação de direitos humanos.

Na Guiné, por exemplo, calcula-se que metade das mulheres sejam vítimas da excisão, como lhes chamam as mais velhas que o fazem, excluindo tratar-se de uma mutilação. Na Somália, a Amnistia Internacional, aponta para 99 por cento de mulheres mutiladas sexualmente.

Algumas morrem por perderem excesso de sangue, outras por infecções, mas quem as “corta” com lâminas ou com as facas que já vitimaram as mães acha que foi por mau olhado, bruxaria, magia, nunca porque sujeitaram um humano a uma tortura a que ele não resistiu.

Um guineense com quem falei, Ibraima Baldé, activista contra a mutilação e líder de uma associação guineense aqui em Portugal, muçulmano, disse que tudo se deve à ignorância. Contou-me ele que uma mulher mutilada deixa de existir sexualmente. Consegue engravidar, à custa de muitas dores, porque as relações sexuais tornam-se um martírio, mas…nunca conheceram outra realidade porque sempre foi assim para elas. Mutiladas em pequenas, para ficarem “puras”, nunca souberam como era ter relações sexuais antes e depois da mutilação.

Claro que, como sempre nestas situações, o homem é que está por trás. Uma mulher sem desejo sexual dificilmente será adúltera e eles ficam descansados porque sabem que a vítima fica “dócil” e será uma “boa mãe de filhos”, se sobreviver quando os tem.

Baldé, que diz fazer campanha contra “isso” – como chama à mutilação das mulheres – quando volta ao seu país Natal, conta que costuma usar o argumento demovedor junto dos muçulmanos como ele de que nas cidades santas do Islão não se pratica a excisão das mulheres. Então porquê fazê-lo ali em África? O argumento religioso não colhe, mas a verdade, diz, é que só entre as etnias muçulmanas existe essa prática.

Para avolumar ainda mais as contradições, os homens assumem que preferem ter relações com uma mulher não mutilada…Pudera, Fernando! Deixam a “oficial” em casa, que só de pensar na questão fica atormentadas com as dores, e vão catrapiscar as outras, que nas rodas de amigos dizem ser impuras.

Fqz-me lembrar aquele fundamentalista islâmico marroquino que, como já te contei, era um implacável defensor da velha máxima das mulheres terem que casar virgens. O jornalista português Paulo Moura, que conta isso no livro “Passaporte para o céu”, quis saber como era não ter sexo antes do casamento e ouviu, com o maior desplante, que isso não era nada assim. O seu interlocutor, por exemplo, tinha duas sobrinhas adolescentes que iam, obrigatoriamente, casar virgens. Mas faziam sexo antes. Por exemplo ele, o tio, sodomizava-as frequentemente.

Como vês, acontecem hoje neste mundo práticas de há 5.000 anos, como me disse Ibraima, referindo que a excisão remonta ao tempo dos faraós egípcios. Posto isto, e como não te quero massacrar mais com assunto tão aterrador, só me resta concluir que ainda nem na Idade Média estamos nalgumas matérias básicas. E as pessoas têm os direitos que os poderosos, em muitas sociedades, querem que elas tenham, ou não. Na Guiné, consegue-se evitar que uma criança seja mutilada eternamente se se pagar às mulheres que as obrigam ao maldito fanado, como lhes chamam. Que também recebem dinheiro dos pais que acham por bem mutilar as filhas porque os líderes religiosos mandam…

Um inconformado abraço.

António Martins Neves


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