Perdemos o Rui

Amigo e camarada Fernando,
hoje venho escrever-te com um sentimento com que nunca o fiz: uma profunda tristeza. Morreu o Rui Moreira e ainda estou para acreditar. Nem espreitei para o caixão. Assim vou iludir-me mais tempo, eu sei, mas às vezes é mesmo preferível viver na mentira. Revoltam-me as injustiças e, se calhar, este mau estar que sinto deve-se também a isso, à convicção de que ele não merecia ser arrastado da vida, aos 46 anos. Para quem gostava tanto de viver, só pode ter sido assim que foi levado do meio de nós, dos que vão achar muita falta dele, mesmo quando se conformarem com a ideia.
Conheci o Rui, provavelmente como tu, por razões profissionais. E ainda me lembro onde: durante um almoço no depois célebre restaurante de cozinha alentejana “O Galito”. Curiosamente, não me lembro ao certo quem estava mais na mesa e não quero arriscar enganar-me. Na altura, trabalhava ele ainda na delegação de Bruxelas. Depois de ter regressado a Lisboa, a relação alargou-se um pouco mais e além do âmbito profissional. Tenho alguns amigos feitos no jornalismo, não muitos, e ele deixou um lugar vazio, embora as contingências do trabalho nos levassem a apenas colocar a conversa em dia por telefone.
Quando numa altura me cansei da Lusa e parti à aventura para participar num dos primeiros jornais exclusivamente editados na Internet, o Rui Moreira irritou-me a sério no dia em que me mandou um correio electrónico a perguntar se não estava já farto daquilo. Eu ali cheio de pica num projecto novo, empresa privada, um desafio como estava a precisar e ele a provocar-me poucos dias depois de ter começado? Não me lembro o que lhe respondi, mas foi atravessado e admito mesmo ter sido algo que não me atreveria a reproduzir aqui. Amenizei o tom de desagrado do seu “assédio profissional” para regressar onde ainda estou quando um dia o administrador da outra publicação convocou uma reunião geral de trabalhadores e começou por se apresentar começando por “evidenciar” o que ele acharia serem duas características que o marcavam profundamente: ser benfiquista e casado com uma alentejana. Estarreci. Ainda não é desta, pensei. E nesse sábado acabei a matutar que o Rui Moreira iria acabar por ter razão mais cedo do que eu imaginara. Abreviando, seis meses depois estávamos nós de novo à mesa, desta vez num restaurante de comida goesa, a conversar sobre as possibilidade de eu voltar para a agência, o que viria a suceder num curto espaço de tempo. Estava mais gente no repasto, mas ainda hoje não sei se alguém se apercebeu da “negociação”. A partir daí, e até recentemente, tivémos sempre um percurso com ligação profissional. E mais umas vezes à mesa, sítio onde ele gostava de estar, mas parece-me a mim mais para conviver do que própriamente para comer. Nunca me pareceu um grande garfo. E depois tinha aquele hábito de acompanhar tudo com cerveja e rejeitar whisky que não fosse novo.
O que gostava verdadeiramente de fazer era contar estórias e fazia-o de uma forma contagiante. Memorável a forma como descrevia a noite em que apanhou o cão boxer a subir para cima do sofá da sala, onde estava proibido de pôr as patas. Narrava episódios que considerava hilariantes com o mesmo rigor e empenho que punha nas notícias. Só que sabia tirar a estas a gordura e os condimentos que punha naqueles.
Outra característica que o distinguia, esta realmente invulgar, era ter sido criado na “linha” e de “betinho” ter apenas uns ligeiros toques apercebidos só por quem estivesse muito atento ou o conhecesse melhor. Quem o ouvisse falar do Alentejo profundo e das peripécias que vivia lá, onde optou por construir uma casa de férias, teria poucas dúvidas de que tinha nascido e crescido perto de Alvito.
A história da primeira ida a um baile lá na terra, os “projectos” para construir um “teleférico” entre o melhor restaurante da vila e a sua casa ou as dores de cabeça causadas pelo cão de cada vez que partia a corrente estavam entre as peripécias que transformava em autênticos contos, narrados sem pressas, a chorar de riso e a contagiar quem estivesse por perto.
Foi assim que o vi, é assim que o recordarei. E quando me arrastarem de cá, que me levem para perto dele. Terei a garantia de que se for para folgar ou mesmo para trabalhar, será sempre com gosto.

Um consternado abraço.

António Martins Neves


2 Responses to “Perdemos o Rui”

  1. 1 ricardo

    Este deve ser um dos poucos sítios na internet onde amiúde deixo uns comentários. Há outros, mas nunca, ou quase nunca, regresso.
    Por isso, é aqui que vou dizer duas ou três coisas sobre o Rui Moreira, a quem não posso tratar apenas por Rui porque não era, de facto, meu amigo. O contrário, claro está, também não.
    Pensava eu que tinha com ele uma relação apenas cordial, entrecortada por dois ou três episódios macacos. Uns simpáticos, outros nem por isso.
    Mas, esta minha prosa teria que ter uma razão.
    Ora se o homem não era meu amigo, então porquê estar para aqui com merdas?!.
    Por uma razão simples: foi o primeiro tipo que me chateou a sério, que berrou comigo enquanto chefe e com quem eu, na altura, achei que podia falar alto também.
    Irritaram-me tanto aqueles berros, por uma tonteria onde eu, ainda hoje acho isso, tinha razão, como me agradou tremendamente aquela sensação porreira de saber que não corria risco algum por estar a falar alto com um director-adjunto.
    Estava eu em Cabo Verde e a porra foi por ter dado um saltinho à Guiné-Bissau para matar saudades.
    Há ainda outro episódio. Estava eu na Lusa há 4 ou 5 anos, a recibo verde, e, num hotel de Lisboa, estava o Rui Moreira à mesa com outros indivíduos, creio o Bill e o JOão Gomes, era uma cena organizada pela Lusa, e dizia o então director-adjunto ou coisa que o valha para os seus amigos. Com esta vida um gajo só pode ter dois filhos no máximo.
    Digo-lhe e: e eu, a recibo verde, posso ter quantos? Não gostou, percebi, porque lhe competia resolver o meu problema com os recibos verdes.
    Disse eu para uns amigos por ali soletrados. Estou fodido…o Rui Moreira vai-me fazer a vida negra. Acho que foi na primeira vez que o vi.
    Passado dois ou três anos, durante os quais pouco contacto existiu, fui para a Guiné. Que era o melhor que me poderia acontecer.
    Um dia, em conversa de corredor com o Rui Moreira, diz-me o gajo: “Tás a ver como foste para a Guiné”. Ora, só não se lembrava do episódio, como fez questão de me lembrar que não era por uma merdice daquelas que ele, e querendo podia, me iria impedir de ir para a Guiné como delegado da Lusa.
    Não sei se por isto tudo, não sei se porque sim, mas a verdade é que, não sendo o Rui Moreira meu amigo, a sua morte me deixou uma sensação muito parecida, para a qual não consigo encontrar formas de a distinguir, a outras onde já me aconteceu ficar perante a morte de um… amigo.

  2. 2 João Carlos Nogueira

    Raramente frequento blogs e muito menos deixo comentários. Mas “algo” me fez abrir um que tinha apenas como título “Morreu o Rui”. Há coisas muito estranhas na vida… Rui como Marias há muitos… Porque abri aquele? E, quando o fiz, fiquei chocado! Apesar de não ver o Rui há mais de 25 anos, a ainda beleza do seu rosto e sorriso do agora quarentão estavam estampados na foto… Cruzei-me com o Rui por uns breves dois anos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Licenciatura de Comunicação. Sempre me perguntei o que ele fazia por lá já que trocava frequentemente as aulas pelos treinos de andebol e, da apetência pelo jornalismo (pelo menos aquele) era nula! Mas as suas raras “aparições” eram como raios de sol na água fria: era um gajo alto, muito bem constituído, super elegante, que “misturava” sabiamente um look desportivo com o de “beto”. A que juntava um low profile de uma virilidade cativante. Sem dúvida o rapaz mais bonito daquele “tempo” onde reinava soberano e sem rival. De repente deixei de o ver. Nunca mais soube nada dele nem o seu paradeiro. Durante todos estes anos lembrava-me algumas vezes e perguntava-me qual teria sido o seu destino (profissional e afectivo). E o Rui fez-me a vontade de onde agora está conduzindo a minha mão para clicar no rato e abrir o link “Morreu o Rui”. É horrível a sensação de se chegar irremediavelmente atrasado. Sobra-me uma imensa saudade dele e da nossa juventude.

Leave a Reply





PARCEIROS