Pegas no machado?
Publicado por Fernando Peixeiro 31 Março 2007 em Cabo Verde, Portugal.António,
falaste dos funerais e da morte, enfim amenizados com o teu inicial “vivíssimo Fernando” e lembrou-me outra coisa que eu acho também triste, aqui deste país dos ventos de leste. Os cabo-verdianos não gostam de árvores! Acho mesmo que eles odeiam árvores e sentem um impulso incontrolável para as cortar pela raiz mal elas entram naquela fase do arbusto.
Eu já perguntei, já tentei entender o que os leva a sentir aquela vontade de pegar num machado, e a resposta foi tão simples que me desnorteou: “Elas chupam-nos a água e as raízes rebentam-nos os depósitos”.
É tão estranho, António! Veres um país que parece já ter morrido há muitos séculos, seco, sem uma gota de chuva durante meses e meses, impróprio para agricultura, inóspito, agreste. Veres um país que em vez de terra arável tem pedras, que em vez de vales verdejantes tem vales secos e pedras, que em vez de campina, de charneca que fosse, tem pedras. Veres um país que, na tua maneira de pensar, devia acarinhar cada árvore, amá-la, homenageá-la, tratá-la com carinho, agradecer-lhe por ela ter feito o favor de nascer aqui. E veres que nesse país afinal as árvores não são bem-vindas!
As árvores, aqui, são rivais, são inimigas na disputa daquilo que mais falta faz. Ainda que a maior parte delas sejam acácias, humildes acácias que se contentam com um restinho de água.
Agora imagina que numa serrania do interior, há mais de 50 anos, sem estradas nem nada dessas modernices que temos hoje, vive um povo que precisa de água e que a única que tem é no fundo de um penhasco, daqueles à séria, uma coisa do tipo Grand Canyon mas sem o rio Colorado lá em baixo e à escala de um país pequeno.
Há 50 anos era dessa poça que muitas pessoas da Serra da Malagueta sobreviviam. E eram os mais novos que desciam por uma corda, presa a uma das árvores que por ali havia, para encherem um cântaro de água e depois fazerem aquela subida a pulso. E a água? deves perguntar tu. A água subia em equilíbrio, à cabeça.
Agora imagina fazeres isto todos os dias mas seres cego. Balila, um dia hei-de falar-te dela, fez isso muitas vezes. Tacteando cada fissura na rocha com os pés, procurando apoios com o tacto do dedo grande, enquanto as mãos se agarravam àquela corda, e na cabeça um jarro de água lá ia subindo.
Uma vida tão triste que não sei se apetece cortar a árvore se cortar a corda! Felizmente por aqui cortam-se as árvores, embora algumas nem sempre de forma acertada. Porque não consigo entender o que levou a Câmara de Praia a cortar as árvores que ladeavam o mar, numa zona onde as raízes tinham de andar muito para chegar aos reservatórios.
O resultado foi catastrófico e está à vista todos os dias. A areia da praia soprada pelo vento de leste vem toda para as casas, para as ruas, galga passeios, entra pelas janelas, corre pelos corredores, e infiltra-se mesmo lá no cantinho do teu quarto, enchendo de pó fino o livro que lês todos os dias.
Sem as árvores que impediam o avanço da areia, a rua deixou de ser rua e é a continuação da praia e só jipes passam pelas dunas do que antes era uma estrada asfaltada.
Para completar o cenário, ponho-te dunas à portas das casas, e passeando-se por cima delas, uma dúzia de cães vadios. Contei-os ontem. Eram mesmo 12, deitados na duna que tenho à porta de casa.
Dizem-me que alguns têm raiva. Pudera! Há algum cão que aguente? Eu também tenho raiva cada vez que saio de casa e levo com uma saraivada de areia. Raiva do vento e raiva da Câmara, que mandou cortar as belas árvores que não deixavam a areia vir fazer da minha sala uma praia.
Se calhar vou continuar assim até que o vento páre ou que descubra um dia destes alguma utilidade para uma duna cheia de cães com raiva à porta de casa.
Mas depois penso na Balila e já não sei. Se uma raiz manhosa me viesse fazer um buraco no meu depósito de água não seria eu também homem para pegar num machado?
Por isso te pergunto. Visto daí, visto de um país onde ainda há vales verdejantes e muitas árvores, onde a água corre nos regatos parte do ano, onde a chuva nos maça durante alguns meses. Pegas no machado?
Um abraço do ressequido.
Fernando Peixeiro


