Expectante Fernando,

férias à porta, preocupações ao largo. Sei que pensas assim, e eu também. Só que o merecido descanso não pode significar deixar de pensar e de viver. Continuamos com os pés na terra e não se evaporam para o céu os problemas que nos atormentam no resto do ano. Quando eles voltam, lá estamos nós a remoer e a perguntar porquê. É o caso que não consegui evitar hoje quando devia sentar-me relaxadamente a dar asas à imaginação ou a relatar-te um belo dia de férias e eis que volta à actualidade o pesadelo dos padres, frades e outros responsáveis da hierarquia católica norte-americana que violaram centenas de crianças.
Não fui capaz de contornar um assunto, que é daqueles de tirar o sono ao comum dos mortais pelas mais variadas razões. Trevas absolutas sem um raio de luz. O mal está feito, mas uma coisa não aconteceu nem vai acontecer, Fernando: Justiça! Lá nos Estados Unidos tudo se resolve com dinheiro. Mesmo alguém que foi violado por quem prometia “protegê-lo” e “dirigi-lo” para o “bom caminho” aceita que o carrasco monstruoso continue alegremente em liberdade, desde que o seu patrão, a igreja católica californiana, neste caso, se disponha afrouxar os cordões à bolsa.
“No problem”, imagino eu um cardeal a dizer quando lhe apresentaram as contas feitas pelos advogados das vítimas: 660 milhões de dólares (quase 480 milhões de euros) e não se fala mais no assunto…  Um recorde, dizem os jornais, acerca da indemnização pedida pelas 500 pessoas que apresentaram queixa contra 220 membros da hierarquia católica só daquele estado norte-americano, a quem acusam de os ter molestado sexualmente, na sua maioria em crianças, deduz-se das notícias. São estes os números recentes. Recuando, a igreja católica dos Estados Unidos já pagou indemnizações no valor de 1,5 mil milhões de dólares (quase 1.100 milhões de euros) a vítimas de abusos sexuais perpetrados por elementos seus, apurando-se que pelo menos 4.000 padres estiveram envolvidos em casos de pedofilia nos últimos 60 anos nos EUA.
Algo está muito mal, e é nos reinos cá da terra, Fernando. Porque para o céu, sem ser de foguetão ou vai-e-vem espacial, nem vão os violadores nem os seus chefes e superiores eclesiásticos que tentaram “abafar” o escândalo enquanto puderam, como referem abundantemente os relatos desde que se começou a saber que nas sacristias onde se apregoava a moral se cometiam dos mais aberrantes crimes. Mas esse problema de arriscarem cair em cima das brasas da figueira é lá com eles… Para quem há escassas centenas de anos mandava para a fogueira quem pensava de maneira diferente do Vaticano, estamos conversados. Agora, exijo eu, comum mortal, que o mínimo de civilidade exigiria duas coisas: um pedido de desculpas formal do Papa, exigindo ao mesmo tempo que os seus padres acusados fossem todos julgados, e expulsos da Igreja, se culpados, e lhes dissesse, olhos nos olhos, que enormidades como as que fizeram nunca poderão ser perdoadas. Vou ficar à espera, Fernando, mas sentado. E não me desagradaria nada, que o cardeal português e os seus bispos viessem a público dizer o que acham do assunto e se já investigaram se por cá não aconteceu nada de parecido nas últimas décadas por essas sacristias fora. Já agora tentem perceber o que leva milhares de padres a violar crianças e divulguem as conclusões a que chegarem. Certamente darão um belo contributo ao avanço da humanidade. Se não tiverem coragem para o fazer, sabes o que espero deles Fernando? Que se calem para sempre! Só pode exigir ser respeitado quem se dá ao respeito…

Um abraço ateu.

António Martins Neves


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