Acarinhado Fernando,
desconhecia a tua faceta de crente e de atribuíres a uma divindade ter-te surgido no caminho essa mulher fantástica chamada Arlinda. Mas até acho que tu mereces e estás à altura de retribuir o tratamento e o carinho que te aconchega e que, pode-se dizer, ela te dispensa. Agora se vês nisso uma “benção” e pretendes dar passos firmes no sentido da religião, e se for a católica, isso é uma opção pessoal. Mas prepara-te porque, para além da Bíblia e de uma carreira de encíclicas, vais ter agora, lançado mundialmente quarta-feira, um “manual” de conduta para andar na estrada. No mínimo, recomendo-te que passes a benzer-te quando entrares no carro. Dizem que nunca se sabe, e na dúvida…
Como não te quero boquiaberto assim, passo a explicar: sem abrir mão de nada – afinal como nos diziam em pequenos, nas aulas de religião e moral que eu era obrigado a frequentar, Deus estava em todo o lado - o Vaticano decidiu produzir dez mandamentos para os automobilistas.Em matéria de condução, quem sempre quis dirigir os destinos da humanidade, acenando com o temor a uma suposta divindade, achou ser agora altura de se fazer à estrada e dizer como os católicos devem comportar-se com um volante nas mãos.
“Não matarás” é uma das regras. Estamos conversados. Nunca ninguém se tinha lembrado. E, dito pela igreja católica, vem carregado de significado. Basta pensar nos cruzados, nas fogueiras da inquisição…E andar a conduzir um carro é quase como andar montado num cavalo a esquadrejar “infiéis”.
O que se justificará mesmo, Fernando, é uma benzedura antes de entrar para o carro. Comparado com o gesto dos jogadores de futebol, que fazem aquela cruz antes de entrar em campo – presumo para que marquem golos e não se magoem -, dos maiores riscos da nossa vida é a aventura de conduzir um carro numa estrada onde circule pelo menos mais uma viatura. E aí, sim! Todas as ajudas são poucas, mais ainda nos países do Sul da Europa e na América Latina, onde a igreja católica tem maior implantação e onde, curiosamente, o caos rodoviário é evidente. Deve ser aquilo a que chamam graça divina. Confesso que não entendo…
Mas não penses que os líderes católicos se ficam pelo que não se pode fazer agarrado ao volante. Naturalmente, quem propala aos moribundos de África que estão a morrer com Sida que não usem o preservativo também não podia deixar de pensar naquilo que, dizem, não fazem: sexo no carro.
Dizem os cardeais que quem procurar prostitutas usando uma viatura ou as ditas que usem um carro para procurar clientes incorrem em pecado. No fundo, argumentam que o automóvel pode tornar-se numa “ocasião para pecar”, seja lá o que isso fôr. Como não especificam, acho que parar o carro num lugar seguro da beira da estrada estará conforme os preceitos. Tanto mais que aí acaba-se o excesso de velocidade, outro dos dramas que tira o sono à cúria romana.
Ficas avisado, Fernando! Ter “anjos” desses em casa tem o seu preço. E agora que, arrisco eu a dizer, o Papa vai editar um código da estrada por ninguém cumprir o seu código de conduta, quando te sentares em cima de quatro rodas pensa bem e não vás por aí a “abrir”. Lembra-te sempre, mas sempre, que no Vaticano, aquele conjunto habitacional ostensivamente rico e histórico, a velocidade máxima é de 30 quilómetros por hora. E que mesmo assim há acidentes: o último foi há ano e meio.
Um abraço ateu.
António Martins Neves

