Realista Fernando,

a tua última carta revela uma realidade bem dura vivida por milhões de pessoas há anos: o dilema de arriscarem a vida para terem uma existência menos má ou sobreviverem como podem, na mais elementar miséria, partindo por mar, a pé, até nos trens de aterragem de aviões. Também por isso nas cartas que dirijo achas que “descasco” em que tem o poder e decide aqui na Europa e no dito Ocidente, concretamente em Portugal. É disso que te falo, Fernando. Da má distribuição de riqueza. E do bolo, mal dividido. Se uns comem duas fatias, outros tantos nem o vêem. Como nas estatísticas do Salazar: cada português comia meio frango depois das contas, só que a realidade era que alguns comiam um pelgazão sózinhos eoutros nem lhe viam as penas.
Aqui já mudou um pouco, mas está muito por fazer e as pessoas não se mentalizaram ainda que têm que ser elas a fazer a verdadeira mudança. Acham que cabe só aos políticos mudar umas regras, fazer umas contas e tudo se resolverá. Completamente errado: o problema está nas nossas mentes, e é histórico. Achamos sempre que a culpa é dos outros, que fazemos tudo bem feito, que os políticos são uns tipos sem escrúpulos, que não sabem fazer mais nada, mas a grande maioria que se atira aos seus lugares acaba sempre na mesma: ignorando a realidade e aferrolhando o máximo de privilégios possíveis. Olha à volta…
Por isso vão parar aí esses desesperados do mundo, que acham da mais elementar justiça ter direito a umas migalhas quando a Europa se banqueteia com um belo naco do bolo. Trocam a vida por uns trocos que nunca terão na terra onde quereriam verdadeiramente ser felizes.
Mas esses que tu vês aí e cujo drama reportas para cá são os que reduzem a “epopeia” a escassas semanas. Porque há outros, que vão por terra, e esperam anos a viver em tocas, como poucos animais, à vista de Gibraltar e do mítico Ocidente, sujeitos às maiores sevícias que se possam imaginar.
Só se falou deles quando alguns quiseram entrar em Ceuta e saltar a rede que os espanhóis lá construíram. Muitos vieram da distante Nigéria, o país com mais petróleo em África, uma suposta democracia onde reinam realmente as empresas petrolíferas. Aos, ou às mais sortudas nigerianas, sabes o que lhes acontece, Fernando? Depois de meses e anos a viver como ratazanas, por vezes até alvo de caçadas por parte dos marroquinos que atacam os bosques onde se escondem e onde chegaram pagando o que não tinham, acabam aqui em Lisboa, a prostituírem-se o resto da vida para pagar aos passadores e evitar que as mafias que as trouxeram não retaliem e matem os familiares lá nas aldeias, que pensam ter as filhas no melhor dos mundos.
É ali em Marrocos, com a Europa à vista, que centenas ou milhares de pessoas vivem o que nós não conseguimos imaginar. Mafiosos, traficantes, polícias, comerciantes…um maná para todos, aquela multidão de desesperados. Muitos são expulsos uma vez, duas, três…nove, dez vezes, para o deserto, mas quando sobrevivem a mais esse calvário voltam sempre. Não admitem outra alternativa: a Europa ou a morte. Não estive lá com eles, Fernando. Mas li um livro de um jornalista português que cumpriu, e bem, a sua obrigação: relatar o mais profundo e inexplicável sofrimento humano, com que convimenos a aqui ao lado, a escassas centenas de quilómetros, ali do outro lado do mar.
Chama-se Paulo Moura, o nosso camarada jornalista, e escreveu o livro “Passaporte para o céu”. Depois de o leres, Fernando até vais achar que eu descasco pouco e…vais começar a gostar de bolos.

Um amargo abraço.
António Martins Neves


1 Response to ““Passaporte para o céu””

  1. 1 Maria João Carvalho

    Fico super-interessada nesse livro. Aqui, fazemos peças diárias sobre os botes de clandestinos. Quando os salvam, é uma sorte. Muitas vezes, a polícia marítima recolhe cadáveres, alguns, e repatria duas e três vezes os mesmos sonhadores africanos.
    Muitos, já não são enviados para o país de origem e estão, há anos, sem ver as famílias. Não têm dinheiro nem vontade para voltar para trás. Amealham como escravos para uma nova passagem que pode ser a última. Com a roupa do corpo, sem comida ou água. Se alguém morre, o cadáver é lançado à água.
    Nalguns países, como o Senegal, é fácil ver como se faz “a a candonga” dos seres humanos. É só reparar nos terrenos em que autênticos palácios estão em construção, notar quem se faz transportar de Mercedes no meio da miséria franciscana que paira à volta…
    Só quando os 27 quiserem fazer um trabalho sério sobre o assunto, prender os traficantes de carne humana na origem, congelar-lhes os bens em Marbelha e na Côte d’Azur… então a União Europeia pode dizer que luta contra a imigração clandestina. Até lá…contem-me histórias!
    Beijos de França
    Johnny

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