Parti a caneta

Resistente Fernando,
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.
Garanto-te que não é nada do que estás a congeminar. Não se trata de nenhum avião nem nenhum carro topo de gama com função acessória de escrever. É um discreto instrumento de escrita que me custou umas escassas dezenas de euros num sábado à tarde num centro comercial. Tem um depósito de tinta que deve ser abastecido de quando em vez para manter a eficácia, é leve, macia, desliza (deslizava) bem e afeiçoei-me a ela como quando simpatizamos com pessoas que conhecemos por acaso e de quem nos tornamos amigos. Caiu-me da mão um dia à noite quando repetia para enésima vez a frase que escrevo na correspondência que continua a chegar cá a casa em nome do antigo inquilino: “Destinatário desconhecido nesta morada”. Não faço ideia quem seja, mas há um banco que não pára de lhe escrever, mesmo recebendo de volta as cartas que deixo à disposição do carteiro. As mãos ocupadas, sacos, papéis, confusão e deixei cair a minha caneta preta. E tinha que ser logo com o aparo para baixo. Tem que levar um novo. Já me disseram que sim senhor, que teve que ir para a fábrica, imagina, só lá lhe podem pôr um aparo. Que seja. Quero-a de volta.
Voltei às esferográficas de sempre, mas, insisto, não é a mesma coisa. É um escrever por escrever, um anotar porque tem que ser, a letra nem sai como antes, parece a de outro. E não tenho explicação. A não ser que tenha havido algum retrocesso ao tempo da escola primária, há quase 40 anos atrás. As esferográficas Bic eram então uma modernice e a professora era extremamente conservadora. Não senhor! Escrever tem que ser com caneta de aparo. E foi assim que arrumei as primeiras letras. Era uma caneta preta e verde, com um fole que se apertava e se largava depois de mergulhar o aparo no tinteiro. O sorvo enchia o depósito e lá saíam aquelas letras redondas, aquela escrita diferente de todos, numa altura em que ninguém imitava ainda as letras de forma batidas pelas máquinas de escrever, nem havia quem colocasse bolas em cima dos is.
Mas agora, e garanto-te que não  é capricho, escrever com uma qualquer esferográfica é assim como trocar umas botas confortáveis por uns chinelos de enfiar no dedo quando se viaja de transporte. Percorre-se a mesma distância, mas há sempre um desconfortozinho, aquele incómodo causado pela falta de aconchego. Perde-se o andar firme, dão-se passos porque é preciso. É o que me tem sucedido, Fernando. Claro que, quanto a escrever mesmo, em definitivo, no trabalho, dispensam-se canetas, esferográficas ou lápis. Basta bater com os dedos nas teclas que saem as letras iguais, todas certinhas, indiferentes. O normal portanto. Mas tem-me acompanhado este frio de meter a mão no bolso interior esquerdo do casaco e não estar lá a caneta. Mas, só por aquela senhora da loja me ter telefonado a dizer que dentro de dias me deverá contactar a avisar que já chegou a caneta, até me sinto mais animado e olho aqui para os caracteres com outro ânimo.
Um renascido abraço.
António Martins Neves