País de doutores
Publicado por António Martins Neves 22 Março 2007 em Portugal.Senhor Fernando,
O começo desta carta não é mero acaso. Foi-me sugerido depois de ler um texto que um jornal da província espanhola da Catalunha dedicado aos “país dos doutores e engenheiros”, obviamente o nosso.
Escreve a correspondente do El Periódico de Catalunya que quem chega a Portugal pela primeira vez depara-se com uma desproporcionada prevalência de doutores e engenheiros, pelo menos na aparência e se ficar de ouvido atento.
E tem a razão a jornalista que assina o artigo, portuguesa, a avaliar pelo nome.
Doutor para cá, doutor para lá, e o recém-chegado começa a fazer contas que deve estar nas proximidades de um hospital e não ter dado por ela. Sim, porque doutores costuma-se chamar aos médicos e não apenas a quem é licenciado. Aqui não: a distinção que deveria ser feita pelo nome próprio de cada um dá lugar aos títulos académicos. Até quando eles não existem.
Durante muito tempo fui cliente habitual de uma tabacaria onde a taxa de “doutores” deveria ser das mais altas no planeta. Tentava encontrar justificação olhando para os visados e pensei, muitas vezes, que eram funcionários dos bancos da zona, dos departamentos estatais, quadros superiores da função pública já reformados. Ali não se dava por um operário, uma empregada doméstica, um funcionário da hotelaria.
Até ao dia em que vi alguém rejeitar o título: “Não me chame doutora porque eu não sou”, disse a cliente com um sorrido meio encabelado. Sem efeito. “Não é mas é como se fosse. É uma pessoa tão delicada que até parece ser”, insistiu a empregada, desarmando, na prática, qualquer desenvolvimento que permitisse manter a compostura.
Cá está, pensei eu, é por isto que não se devem fazer sondagens a olho e afinal lá no bairro a taxa de licenciados nas academias não deveria ser superior à média nacional, que as estatísticas – as credíveis – indicam ser de 10 por cento, menos de metade dos 23 que ocorrem nos países da Europa Ocidental, América do Norte, Austrália, Japão. Mais uma pelintrice das que nos tolhe a passada.
O texto do jornal catalão pega pelo lado mau da coisa, se é que poderia fazê-lo de outra forma. Que os visados não fazem nada para contrariar o tratamento distinto de que são alvo, alguns até o incentivam e quem não é doutor omite o facto quando lhe atribuem o título.
A televisão encarrega-se, acentua ainda o diário, de dar um empurrão generoso. Acrescentou eu que raros são os entrevistados sem título antes: “engenheiro” José Sócrates é preferido a primeiro-ministro, “professor” Aníbal Cavaco Silva predomina sobre Presidente da República e “doutor” Jaime Gama leva sempre a dianteira sobre presidente do Parlamento. Assim sendo, senhores por cá há poucos. Faziam falta mais, digo-te eu.
Depois há aqueles casos ridículos dos visitantes que perguntam aos doutores qual a especialidade médica que dominam ou o que é que ensina aquele professor que jurou nunca se candidatar a líder de um partido “nem que Deus descesse à Terra” e acabou no lugar escassas semanas depois.
Mas a melhor rábula que conheço atribuída a forasteiros confrontados com a proliferação de títulos académicos em Portugal foi protagonizada por um chinês. Quando lhe perguntaram qual era o nome próprio mais frequente no país, ele nem pestanejou: “Doutor”.
Abraços.
António Martins Neves


