Outra lição para Timor
Publicado por António Martins Neves 16 Fevereiro 2008 em Portugal.
Analista Fernando,
já te falei várias vezes de Timor-Leste, mas nunca numa perspectiva política, dos seus dirigentes. Lá como cá gosto mais de avaliar as consequências das decisões dos políticos do que anunciá-las. Só que recentemente, como bem sabes, iam matando o presidente timorense, José Ramos-Horta. E isso abalou-me mais do que possas imaginar. Não porque tenha estado muito ligado à realidade daquele território transformado no mais jovem país do mundo, embora tenha lá passado um dos meses mais ricos da minha vida, mas porque um foragido das forças armadas de um país com uma Constituição democrática supostamente tentou matar o chefe de Estado, que é apenas e só uma das duas personalidades de países de língua portuguesa distinguidas com o Prémio Nobel da Paz, o galardão político com mais peso à face da Terra..
A história daquilo que pareceu ser um atentado tem manchas nebulosas que nos mantém com dúvidas sobre o que realmente aconteceu. O certo é que Ramos-Horta ia morrendo baleado. Por quem ainda não se sabe ao certo. Depois de ponderar, não pude evitar de te escrever sobre isso, Fernando. Não sobre quem fez o quê, que para isso há (ou devia haver) a Justiça de um país democrático.
O que ficou claro agora é que não basta ter um currículo de dedicação absoluta à causa e ao povo para depois vir um marginal/terrorista que acha que a razão está no cano da metralhadora, que o próprio Presidente e a justiça não trataram como tal, com base nos crimes que a criatura cometera, e depois, pimba, só não morre o Presidente de uma República por obra do acaso.
Timor-Leste pode parecer um milagre aos olhos da maioria das pessoas, mas é um país que, depois de ter sido destruído por completo pela Indonésia, recebeu alguma elite que fugiu e aproveitou o exílio para aprender e estudar as regras da civilização democrática, sempre a penar vir a aplicá-las na sua pátria. José Ramos–Horta foi o maior expoente dessa postura. Um diplomata, um conciliador, que nunca quis despir a roupa do cidadão normal e que acredita que, lá bem no fundo, todas as pessoas, são boas.
Como sabes, falei como ele dezenas de vezes por razões estritamente profissionais, a maioria ao telefone, bastantes pessoalmente e até algumas à mesa, quando compartilhámos algumas refeições: o político que ele era, de um lado, e eu, o jornalista do outro. Nunca houve a mínima confusão sobre o papel de cada um, ao contrário do que por aqui vem acontecendo. Nações Unidas para cá, Nações Unidas para lá, e ele lá andava, sempre com o mesmo tom baixo de voz, a mesma coerência, carregando no peso das palavras para derrotar os adversários e nunca na elevação do volume sonoro.
Dedicou a vida ao país a que agora preside, a bem dizer. Fugiu dias antes dos Indonésios invadirem a antiga colónia portuguesa em 1975. Só voltou depois da vitória do referendo que em Agosto de 1999 deixou claro que os timorenses queriam a independência que ele se esforçou dezenas de anos por manter acesa e não ficar sob o jugo de um país que os tinha massacrado e subjugado como raramente a História registou no final do Século XX.
Ramos-Horta, no seu percurso quase peregrino – como tão bem foi retratado pelo nosso camarada Manuel Almeida com a figura de Cristo numa t-shirt quando deambulava pelo seu país – descurou que há ovelhas negras em todos os rebanhos. E, ao contrário do que aprendera, no Direito, a Justiça é uma das pedras base de qualquer regime e um dos principais sustentáculos de qualquer país.
O homem que terá estado por trás da morte do Presidente timorense, porque parece que não terá sido a ele a disparar porque já estava abatido nessa altura, passeou-se por Timor nos últimos anos sem que fosse incomodado, e, mais escandaloso ainda, chegou a ser escoltado, como se viu na televisão, por tropas australianas. Era um desertor das forças armadas timorenses, cometera um dos mais graves crimes em que pode incorrer o cidadão de qualquer país. Mas nunca foi detido porque as forças que se ocupam de garantir a segurança militar de Timor não quiseram. Foi vê-lo no paraíso de Maubisse, como se tivesse feito algo em prol da pátria, ele que foi uma colaborador dos indonésios durante a ocupação. Com bandidos não se pode condescender, e Ramos-Horta ficou agora a saber disso. Felizmente, para os timorenses, sobreviveu. Devia ter feito actuar as instituições, como dizem os políticos, e aquele homem que traiu a sua pátria, levou mais de 600 militares atrás e colocou em causa o futuro de todo um país devia estar preso há muito tempo. Optaram por negociar com um bandido que chegaram a proteger. Ia acontecendo uma catástrofe. Que sirva de exemplo. E que as ditas instituições do Estado de Direito funcionem. Um regime democrático não se constrói com cedências. Antes delas têm que ser firmados os pilares. As excepções serão avaliadas de acordo com a lei e nunca permitindo que bandidos e desertores venham reivindicar legitimidade com armas na mão e dedo no gatilho. O exemplo está dado.
Um firme abraço.
António Martins Neves



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