Os polícias e o José Afonso

Primeiro de JaneiroCaminhante Fernando,
tu aí a desfrutar a natureza e eu aqui a vasculhar e observar os comportamentos das pessoas, os seu problemas, as suas revoltas. Senti-me subir ao alto desse vulcão e vi até o teu boné esvoaçar, mas tinha registado um momento que vivi esta semana para te contar: uma manifestação de polícias que não subiu a lado nenhum, andou sempre em piso direito no meio de prédios, mas teve um pormenor que achei marcante. Embora poucos tivessem dado por isso.
A música que antecedeu o desfile de vários milhares de polícias em Lisboa pareceu-me significativa, embora o líder do sindicato que a convocou tentasse desvalorizar o facto. Por um lado havia ali um sentimento bom: polícias a manifestarem-se livremente em vez de acompanharem, como sucedeu tantas vezes, e reprimirem grupos laborais que mais não exigiam do que o elementar direito a ter um emprego e uma forma digna de sobrevivência. Parece que já não é assim, Fernando. Não é de agora, mas parece estar a impôr-se: os polícias caminham para ser uma das classes mais desfavorecidas. E autoridade com moral baixa é o caos na população.
Voltando à vaca fria: o que se passou na segunda-feira, quando milhares de polícias foram reinvindicar na rua melhores condições de trabalho, como qualquer metalúrgico, foi que o ambiente musical fez recordar tempos lá bem atrás, pouco depois do 25 de Abril.
A aparelhagem sonora passava José Afonso desde que eu chegara ao local, durante uma boa meia-hora, quando troquei breves palavras com o líder sindical de serviço. E falei-lhe na música: – Que significado tem isto? – perguntei.
Como nada acontece por acaso, estava ali a decorrer uma demonstração pura de que as forças policiais perderam aquele anátema de repressão que construíram ao longo de 50 anos de ditadura e mantiveram por mais umas décadas, sempre do lado do poder, que é quem ordena.
Simpático, o sindicalista, respondeu-me: – O que está a pensar é o mesmo que vai na cabeça de muitas pessoas, mas isto só está a acontecer porque quem está a escolher a música gosta muito de José Afonso . Vamos já tratar disso…embora a música seja boa”, ter-me-á dito o polícia, citando-o de memória.
E mudou. A seguir entrou um vira minhoto, depois uma gravação de um grupo coral alentejano…Era uma manifestação nacional, adequava-se. No meio daquela rábula musical ocorreu-me a forma como eram encaradas, quando éramos garotos e depois adolescentes, as forças de segurança. Uma espécie de tropas civis cujo único objectivo era reprimir: multando, batendo, prendendo…Hoje muita coisa mudou e já começa a instalar-se a ideia na maioria das pessoas de que um polícia é um funcionário do Estado pago para fazer cumprir a lei e ajudar as pessoas.
O que não esperava era que depois da tal mudança pelas músicas regionais não tenha regressado o José Afonso, mas antes o Sérgio Godinho, outro dos ditos actores e cantores activos em Abril, a dar um ar de revolução a uma manifestação de forças policiais (desfardadas, quase todas)…E foi assim para além de uma hora. Ninguém mais achou relevante o facto de Sérgio Godinho ser o eleito para ambientar a concentração enquanto a a “manif” não começava e o animador de serviço lá foi fazendo o gosto ao dedo…com os discos. Coincidência…? Não faço ideia, Fernando. O certo é que achei logo que tinha que te pôr a par desta: sem ser a primeira manifestação de polícias, aqueles que foram o símbolo da opressão durante muitos anos – naquela altura do “respeitinho”, de que te deves lembrar bem – agora animam-se a ouvir das vozes que mais contribuíram para viver-mos livremente nos dias que correm. Afinal, Fernando, acontecem coisas interessantes e importantes por cá, até politicamente falando, como é o caso, e eu hoje consegui escrever-te uma carta menos azeda. Se calhar devido ao gosto musical de um anónimo polícia, mas lá que foi um fim de tarde bem cantado, disso não duvides…

Cinco abraços de uma assentada.

António Martins Neves