Observador Fernando,

aí na costa Oriental de África, uns milhares de quilómetros para Nordeste, há 18 anos que um país mergulhou no caos de onde nunca mais saiu. Esventrada por uma guerra civil sem fim à vista, a Somália caiu no esquecimento do dito mundo Ocidental até que a pirataria contra navios mercantes que abastecem a Europa voltou para lá os holofotes. Que não mostraram com destaque uma outra realidade que te quero contar hoje.
Tropecei há dias num pedregulho semi-escondido na Somália quando lia o Courrier Internacional. Um rapper somaliano chamada K’Naan e emigrado nos Estados Unidos escreveu um artigo, originalmente publicado na URB MAGAZINE, que ajuda a compreender o que se passa lá por aquelas cálidas águas do Golfo de Áden e arredores. Livrando-se de uma ditadura de 20 anos, em 1991 aquele país do dito “Corno de África” ficou na mão de dois líderes que rapidamente se tornaram em “senhores da guerra” ávidos por sustentar os respectivos “exércitos” e enriquecer a qualquer preço, prática generalizada a nível mundial, mas por lá feita à descarada. Conta o músico que um enveredou pelo assalto aos comboios de camiões carregados de bens enviados pelos designados países ricos com o manifesto objectivo de  evitar a catástrofe humanitária. Depois vendia a ajuda que roubava e pronto. Aparentemente por ser do mesmo clã, o segundo torcionário não virou as armas para o primeiro mas antes para a longa costa do país, onde descobriu que aquele mar todo lhe poderia trazer lucros aliciantes. K’Naan relata que por essa altura já os pescadores da região se queixavam que naquelas águas de ninguém eram muitos os barcos de outros países que entravam por ali dentro e lhes roubavam o peixe. Mal sabiam eles que o pior estava para vir. O senhor daqueles mares, chamado Ali Mahdi, descobriu uma galinha dos ovos de oiro oferecida, imagina lá tu, por insuspeitas empresas suíças e italianas. E o que passou a fazer Ali? Simplesmente a oferecer o fundo dos mares da Somália para as companhias europeias depositarem lá contentores com resíduos perigosos. Se os tratassem, como obrigam as leis porque se regem as tais empresas, teriam que pagar mais de 700 euros pelo tratamento de cada tonelada de lixos perigosos. O bandido sem escrúpulos permitia-lhes depositarem nos “suas” águas o veneno que produziam desde que lhes pagassem pouco mais de dois euros por cada tonelada! Estás a ver o maná… O que poderia acontecer depois, isso não interessava nada, era lá longe da Europa, eles que se amanhassem. E ocorreu mesmo: o “tsunami” de 2004 originado pelo marmoto de 2004 ocorrido na Ásia chegou à costa da Somália e a força do mar rebentou alguns contentores e o lixo tóxico que encerravam espalhou-se pela costa. As populações que viviam à beia-mar começaram a queixar-se de problemas de saúde graves: hemorragias internas, problemas de pele e sintomas semelhantes a doenças cancerígenas. O que a empresa suíça Achair Partners e a italiana Progresso haviam “enterrado” na costa eram resíduos radioactivos, metais pesados e detritos químicos, relata o rapper no seu artigo, assegurando que a prática se mantém.
Passaram meses até que as populações atingidas percebessem o que lhes estava a acontecer. Fizeram-se ao mar para impedir os cargueiros de lhes envenenar ainda mais a vida. Daí até pescadores e milicianos passarem a assaltar navios que nada tinham a ver com o caso foi um curto passo. Aqui, o Ocidente acordou. E o que fez? Mandou para lá navios de guerra que servem de muito pouco, digo eu. A pirataria tornou-se uma importante fonte de rendimento para quem viu os seus mares envenenados, diz ele. E chama bandidos a quem enviou para lá os lixos. Remate do artigo de K’Naan: “Os piratas de uns são a guarda-costeira de outros”.

Um justo abraço.

António Martins Neves


3 Responses to “Os outros piratas da Somália”

  1. 1 Luis Nascimento

    Costumo apenas ler, de vez em quando, prosas interessantes trocadas entre o António, neste rectângulo, e o Fernando, que não conheço, mas é que é um cronista da terra que me viu nascer em 1967 e a que não regressei desde 1980.
    Ainda assim conservo a memória de uma terra mágica, mansamente banhada pelas águas mornas do Índico. Uma terra que outros fizeram sofrer, primeiro a partir de 1500, depois no boicote permanente de regimes racistas e militaristas vizinhos, e tambem por um regime autocrático, que prometia libertar o país do “Rovuma ao Maputo”. Não façamos reexames à historia, antes olhemos para Moçambique pelas suas gentes, pelos homens e mulheres simples e afáveis, pelos seus quadros, muitos deles deram e dão cartas ao serviço da paz no mundo, nas Naçoes Unidas (desde Eduardo Mondlane, passando por Graça Simbine, Chissano e muitos outros).
    Pela veia de um Craverinha, de um Mia Couto, de um Nelson Saúte ou por essa capacidade extraordinária que Malangatana tem de nos surpreender, pela forma como recria rostos e almas.
    E fez bem o ilustre António em alertar para o caos da Somália. Não lhe chamo estado “falhado”, como agora é moda dizer. É um estado que viveu sob uma tirania, primeiro de Siad Barre, depois de clãs que se degladiam todos os dias. A Somália não tem petróleo, não tem nada, não tem água sequer, por isso não interessa muito a certos hipócritas senhores do mundo. É um local de morte permanente. Só lhe resta a importância estratégica de ser um ponto de acesso que abraça o Índico e a entrada para o Mar Vermelho. Só agora, há uns dois meses, a dita “comunidade internacional” olhou para a pirataria, fenómeno que ressurgiu há anos noutros mares como os da Indonésia ou das Filipinas. Mas o povo somali não é alvo de qualquer intervençao militar humanitária. Porque a Somália-terra-chão nada tem para oferecer como contrapartida.

  2. 2 gina

    as intervenções militares e de outro tipo,,ainda n mostraram que tenham sido boas para qualquer pais de africa,,e que tal se os europeus armados em espertos,,deixassem que cada pais faça o que lhe apetece,o os somalis que façam o que quiserem do seu pais,e a europa que deixe de ser preguiçosa e mude as rotas dos carregueiros,,acabavam as noticias de sequestros e pagavamos mais uns centimos pelas mercadorias,,no meio de tanto imposto n se notava a diferença,,o que n tem piada e sermos inundados com notiicias de pirataria feita por maltrapilhos

  3. 3 Luis Nascimento

    Nao posso concordar consigo,Gina, porque aqui nao se trata de “intervençoes militaeres”. Existe um mecanismo nas Naçoes Unidas e um dispositivo de paz e humanitario criado e pago por todos nós,como paises contribuintes para o sistema da ONU. Foi por causa de europeus e norte-americanos estarem distraídos,por exemplo,que no Ruanda se procedeu a uma gigantesca limpeza etnica que vitimou 800 mil pessoas em 1994. Mas foi por causa do tal sistema ter funcionado bem que em 1999-2000 a ONU evitou uma tragedia de proporçoes ainda maiores em Timor-Leste. A tal “intervençao militar” salvou dezenas ou centenas de milhar de vidas,tratou dos deslocados internos e dos refugiados em timor ocidental,cerca de 300 mil.
    A soluçao que propoe,acabar-se com as rotas da Somalia e do Golfo de Aden, nao faz qualquer sentido, seria uma atitude derrotista face ao terrorismo e ao banditismo organizado. Sou contra a repressão,mas sou fervorosamente a favor da prevençao de conflitos e da tragedias humanitarias. E muitas vezes nao é preciso premir o gatilho. Em timor-leste nao foi.
    Relembro ainda que é por causa de a ONU ter na R.D.do Congo a sua maior operaçao de imposiçao da paz,cerca de 24 mil homens,que a guerra civil naquele pais ainda nao assumiu contornos semelhantes á do Ruanda. Ha que acreditar e apostar,reforçando as instituiçoes multilaterais.