Viajado Fernando,

nunca fui grande navegador, mas atrevo-me a repartir contigo esse fascínio por navios. E mais ainda quando esses barcos nos levam a ilhas, esses pedaços de terra que o mar tolera e que quase sempre nos encantam. Pela diferença, pela diversidade e, como aí, em Cabo Verde, pela forma como sustentam a vida. Em suma: pela cultura que encerram e que o mar parece reter ali e impedir que se vá.

Ir numa uma embarcação em direcção a uma ilha que se desconhece, onde nunca sepôs o pé, é uma experiência difícil de transmitir. O embalo das ondas, as colinas, depois as árvores e as casas, finalmente os vultos das pessoas, tudo a ganhar forma à medida que nos aproximamos lentamente. Nada a ver com o cair de avião num aeroporto ou chegar de comboio a uma estação. O barco dá-nos tempo para ir preparando os sentidos.
Uma das raras vezes em que senti esse prazer de uma forma clara – embora um pouco enjoado – foi nos Açores, numa viagem entre as ilhas de S. Jorge e do Pico. Quem parte das Velas como eu, parece que aquela montanha no meio do Atlântico que dá o nome à ilha e é o ponto mais alto do território português está logo ali, um canal apenas pelo meio. Parece…
Recordo que era de manhã e se esperava o barco no cais das Velas, uma das duas principais localidades – a par da Calheta – erguidas naquela comprida e estreita língua de terra onde vivem os jorgenses. Imaginava eu que ia entrar pelo porto adentro um navio com porte, casco alto para enfrentar ondas a sério, pois afinal estávamos em pleno Atlântico e o mar, sempre ouvi, não é para brincadeiras. Puro engano. Páginas tantas lá surgiu uma lanchazita retété, retété que por momentos ainda pensei ser uma pequena traineira ou outro barco de pesca artesanal. Nada disso: chamava-se “Espalamaca” e iria levar-me. Tanto quanto sei, já arrumou o leme e o mais que lhe adivinho é estar amarrada nalgum cais, esquecida, depois da missão cumprida por décadas. Contaram-me depois que era uma embarcação mítica e  famosa entre os açorianos, pelos temporais que enfrentou e pelo que fez sofrer de enjoos e de sustos aos viajantes que a ela recorriam quando as ligações aéreas estavam como o Pico para mim, fora do alcance.
Toca de saltar, procurar lugar numa cabine onde havia bancos aí para umas 15 pessoas que conseguissem suportar o cheiro intenso a gasóleo que subia da casa das máquinas. Nem pensar. Haja lugar no convés, que a brisa marinha é muito melhor companhia. Dito e feito. Arrumei-me ali à popa, onde um carregamento de queijos de S. Jorge – daqueles que parecem rodas de carro e pesam de cinco quilogramas para cima cada um – me deixaram espaço para sentar.
A viagem prometia ser suave enquanto a lancha se manteve perto de terra. Quando saiu do “abrigo” da ilha e se entregou ao mar e ao vento para atravessar o canal até ao Pico, começou um sobe-e-desce e uma oscilação a que os estômagos presentes não se habituaram. Mar grosso, ondulação não muito grande, mas vagas largas, nada de agitação miúda. A “Espalamaca” lá subia por aquelas colinas de água e descia-as a seguir, para ser travada numa espécie de vale de mar, logo seguida de mais uma “escalada” e nova queda deslizante.
Para tornar mais agreste o acima e abaixo, aquele canal que parecia estreito, e o Pico, que diria ali ao alcance de pouco mais do que uma caminhada sobre o mar, precisava de algumas horas para ser percorrido um, e atingido o outro.
Neste caso, aquele prazer que se sente na aproximação a uma ilha ficou um pouco desbotada por algum incómodo físico, mas sobreviveu.
Julgo que umas duas horas ou mais que se multiplicavam pelo que sentia, via e cheirava…Um dos marinheiros tinha quase por exclusiva missão entregar sacos para evitar que os passageiros atirassem a “carga ao mar”. E eram muitos a recorrer àquele auxílio, mesmo gente das ilhas que não eram estreantes como eu naquela experiência. Ouvi nesse dia que chupar uma rodela de limão ajuda a acalmar os estômagos sujeitos a tormentas do género. 
Mas como, era hábito, lá se chegou à Madalena do Pico. Mais náusea, menos náusea, os pés em terra devolveram a firmeza habitual a um não marinheiro. E depois, o que foi aquela viagem a quem a andava a conhecer o paraíso? Um dia ainda voltarei a falar-te do fascínio que tenho pela parte que conheço daquele arquipélago. Se a natureza foi mãos largas nalgum lugar do Mundo, terá sido nos Açores. Se calhar poupou aí em Cabo Verde para investir mais acima.

Um abraço ilhéu.

António Martins Neves


1 Response to “Os navios e…as ilhas”

  1. 1 Professorinha

    Gostei de ler… Fez-me lembrar a “minha” Madeira que também é rica em natureza.

    Também enjoei quando resolvi ir de barco até Porto Santo, o meu estômago é fraco…

    Adorei ler a descrição.

    Obrigada pela lembrança :)