Remediado Fernando,
tive um professor que no final da adolescência decidiu sair de casa dos pais, assim como um navio que solta a amarra do porto para se poder fazer ao mar. Claro que não deitou contas e o que ele esperava ser um idílio começou a ganhar contornos de pesadelo. Pagar o quarto e comer exigiam dinheiro que não tinha suficiente. Sabedora disso, a mãe ia levar-lhe as refeições, que ele aceitava mas recebia em tom de protesto:”Lá vem a burguesia dar de comer ao proletariado”.
Recordei-me desta história – passada nos calores da Revolução de Abril e vivida por um barbudo e aguerrido militante da extinta UDP – a propósito da crise financeira que atravessa os Estados Unidos e vai atacar também aqui pelo Velho Continente como uma grande epidemia sem controlo.
Ele fez o que o fervor do momento lhe impôs, mas esqueceu-se que era necessário sobreviver para disfrutar a suposta liberdade que almejava. Com as grandes financeiras norte-americanas a história tem uma moral semelhante, só que tudo em grande, como de costume. O jovem tirou a carta mal fez 18 anos, os papás compraram-lhe um descapotável logo a seguir, mais um apartamento, dinheiro com fartura, ele deslumbrou-se, pensou que a vida era só e apenas um mar de rosas e um belo dia espetou-se com o espadalhão contra uma palmeira em Beverlly Hills e acabou a gemer, todo engessado, nos cuidados intensivos do hospital.
Os paizinhos, ai o meu rico menino, maldita palmeira, não saíam da cabeceira noite e dia e mal ele abriu a pestana sussuraram-lhe, para o animar, que já tinham encomendado outro carro, desta vez uma viatura mais segura, para andar mais protegidinho.
Com as financeiras também foi assim. Empanturraram-se de dinheiro e foram sempre por ali fora, a querer ganhar mais e mais, como uma corrida louca pela auto-estrada, sempre mais e mais acelerador, mais e mais lucros sem olhar a meios e…pum! Espetaram-se… Quem devia ter visto, assobiou para o lado, quem alertou para a postura suicida foi desdenhado e insultado. Agora, são todos os contribuintes que vão ter que pagar a conta que meia dúzia de criaturas apelidadas de inteligentes contraíram para encher ainda mais os cozes a uma mão cheia de milionários. A propósito desta triste fábula, recomendo-te a leitura do que escreve sobre o assunto o que considero um dos mais eloquentes e sensatos comentadores da nossa praça, Rui Tavares.
E que nos resta, Fernando? Ficar a ver o aperto cada vez mais agudo e insuportável, porque quem manda – e nós elegemos, há que o dizer – decidiu que este era o caminho a trilhar. Bom, também podes contrapôr que só de quatro em quatro anos é que se lembram de nós, porque de resto é um punhado de milionários, “eleitos” apenas e só pelo dinheiro que impõem a regras a quem diz que nos governa. Valha-nos a possibilidade de ir protestando, batendo o pé, gritando, em cartas como esta e recorrendo a meios verdaeiramente democráticos como a net. Para além disso, teremos que ficar a ver onde este caminho nos leva.

Um descrente abraço.

António Martins Neves


1 Response to “Os meninos das mamãs”

  1. 1 ricardo

    Não sei bem porquê, mas ando com esta estranha sensação que toda esta crisalhada americano-global não é mais que uma sórdida urdidura elaborada por uns tipos raros para desviar dinheiro do Estado, dos Estados, para os seus bolsos. É que se há uma merda que o tal capitalismo obamamente “wild” nos ensinou foi que ganhar dinheiro tem muitas formas… pena é que as caras de quem o ganha sejam cada vez menos. Mas foi sempre assim. Alias, ainda ninguém me convenceu que os governos e essas coisadas todas não são mais que os cipaios dos gajos que têm, de facto, poder, para lhes irem gerindo as quintas, sendo nós a actualização dos antigos campónios que atafulhavam as terras dos senhores feudais. E esta crise não é mais que a chegada do tempo de os senhores pedirem aos cipaios para pagarem as “tax”. Por sua vez, os cipaios, vão buscar essas coroas à misera renda dos campónios. Só muda o formato desta canguice, porque os artistas são e sempre foram os mesmos.
    Viva a República!

Leave a Reply





PARCEIROS