Tradicional Fernando,
fins-de-semana como este que passou, com frio e sol por aqui, recordam-me aqueles dias em que costumamos juntar uma mão cheia de amigos e amigas e passar um dia diferente, na serra, no campo, a fazer algo que, pelo menos nós, assistimos desde que nascemos, a saborear gostos que as leis não conseguem imaginar, mas apenas evitar. Longos dias de prazer, portanto.
Sabes que tenho sempre o fato-macaco e as galochas prontos. Não me importo de levantar cedo, o herdeiro quase não dorme de emoção e agora anda sempre a perguntar quando regressas, que tem muitas saudades daqueles dias diferentes…que até banda sonora própria já ganharam. Aconteceu um dia ter acabado de comprar um disco de um grupo de ciganos macedónios chamado Koçani Orkestar e termos ido o caminho embalados pelos ritmos impostos pelas tubas, trompetes e os restantes instrumentos de sopro da banda. Ficou a marca…
Antes disso, ainda há aquela ”obrigação” de levantar bem cedo sem imposições nem hesitações. Só determinação. Vestir a roupa a correr sem banhos – esse vai ter que esperar quando o corpo acusar mais suor e cansaço. Sim, sei que sou dos derradeiros que ainda vê tudo a funcionar com empenho e dedicação, um momento que tem (e teve muito mais) solenidade.
O ritual da preparação, que a maior parte das pessoas não entende porque só o viu muito depois de votar, é outro momento que gosto de reviver. Fazer o que é preciso, quando é necessário, onde se exige…sem falsos pudores, nem modernices hipócritas que quase invertem os valores, tornando um não vegetariano quase num “monstro” sem sentimentos. Falta de vida… de quem tudo o que vai parar à mesa começou no supermercado e não se fala mais no assunto!
E depois aquela cachola assada, esse acepipe que raramente consigo provar, com muito coentro, alho e regado por azeite. O bom vinho, conversa que nunca mais acaba, um dia que devia ser interminável…Os beijinhos no medronho, o café de cafeteira, mais tarde ainda umas febras na brasa, a noite a mandar-nos embora e a impor o fim de uma dia feliz. Tenho saudades de uma jornada assim, Fernando. E aqui em casa há uma pessoa que se lembra mais vezes do que eu e, frequentemente, pergunta quando voltamos àquele ritual anual. Digo-lhe sempre que voltaremos, só não lhe consigo dizer quando. Curioso é como lhe tomou o gosto! De pequenino é que…
Um verdadeiro abraço.
António Martins Neves



Nem sabes como te compreendo.
Ao contrário de vocês não cresci ao som desse ritual, que também ele tem uma banda sonora muito própria. Os falares, as vozes, o guinchar do bicho, o silêncio, e mais vozes, risos e sorrisos e gargalhadas.
No entanto, tal como tu, tenho saudades do nosso ritual anual. Dos miúdos a correr e a tentar ajudar, do teu fato macaco e galochas, dos lenços na cabeça, do fazer um pouco de tudo que com os anos já é automático… apesar de vir muitas vezes directamente da cidade… de ir apanhar laranjas e couves e salsa e coentros.
E tenho saudades dos pestiscos e das longas conversas à mesa ao som da algazarra dos miúdos na rua. E tenho saudades profundas do olhar e do sorriso da mãe do Fernando e do abraço à chegada do pai.
Pelos caminhos destes anos crescemos juntos de alguma maneira e fomos tomando rumos diferentes.
Mas volto a dizer… Não é razão para pararmos de crescer juntos, nem que seja uma vez por ano, nem que seja só naquele dia de inverno com sol.
Beijos grandes para os dois