Aventureiro Fernando,
o Luís Nascimento, um amigo de longa data e companheiro de muitas jornadas, fez questão de me fazer chegar por estes dias um cópia de uma reportagem que fez para a rádio, onde é editor do Internacional, a Antena 1. Ele tem aquela veia que vai escasseando. Reuniu uma das melhores agendas que conheço, pelo que vou ouvindo (entrevista em qualquer parte do mundo quem interessa ouvir em cada momento), mas o que ainda mais o delicia é uma bela história, cheia de sons, retratos, contada pelos protagonistas. O repórter só vai dirigindo a conversa para o que importa. Não percamos, mais tempo. Aqui te deixo o relato de uma travessia de Verão.O Luís andou pelo Algarve serrano e eu também já lá fui, porque metade de mim tem raízes naqueles cabeços de mato ressequido. Um dia, em trabalho, fui ter a uma aldeia onde sabia haver um casal  que teimava manter viva uma actividade a que mais ninguém resistia daquele modo, como há centenas, milhares de anos por ali se fazia com toda a normalidade.
Melhor do que recontar é deixar aqui o que escrevi nessa altura, em Março de 2001:

Ele semeia as plantas e realiza todo o processo até a “febra” ficar pronta a dar origem ao fio. Ela trata do resto, tecendo os panos no velho tear de sempre. São o último casal que ainda realiza o ciclo completo do linho em Portugal.
Aos 80 anos, Senhorinha Gonçalves e Manuel Lopes conseguem manter de pé uma actividade quase extinta mas que era vulgar há dezenas de anos no Nordeste Algarvio: semear o linho e transformá-lo em tecido, que depois é utilizado para fazer toalhas e lençóis.
Trabalham ainda como no tempo em que naquela região fronteira com o Baixo Alentejo os habitantes tinham que fabricar os tecidos para confeccionar a roupa que usavam, com linho e lã.
Mas, ao contrário dos restantes camponeses que ainda resistem na zona serrana do concelho de Alcoutim, o casal da aldeia de Penteadeiros nunca desistiu de produzir o linho.
E se ainda há quem teça na região, embora com recurso a teares mais modernos e com objectivos exclusivamente monetários, mais ninguém semeia as plantas que dão origem depois ao fio, como ainda faz Manuel Lopes.
A cultura deste ano está mesmo atrás do forno, onde ainda cozem o pão que comem.
É um canteiro pequeno, com uns dez metros de lado, verdejante. “Isto é que é o linho”, explica o camponês, pegando numa planta de folhas miudinhas que se confunde com as ervas daninhas e indesejáveis que o Inverno chuvoso fez crescer abundantemente.
Explica Manuel Lopes que a terra encharcada não permite mondar a sementeira, pois corria o risco de arrancar também os pés de linho quando colhesse as ervas infestantes.
Contas por alto, calcula que aquela sementeira deverá depois originar, no tear, uns dez metros de tecido. “Isto é só já para a amostra”, confessa.
A sementeira do linho “dá muito trabalho e eu vou estando velho”, queixa-se Manuel Lopes, cuja agilidade e desenvoltura contrariam os queixumes de quem já cumpriu oito décadas de vida.
Quase em frente da casinha do forno, do outro lado da rua estreita, uma porta tão velha como a construção tem o postigo aberto. Uma espreitadela indiscreta permite vislumbrar, no espaço iluminado por uma telha de vidro no telhado, uma figura atrás de uma estrutura de madeira, cujos movimentos produzem um toc, toc espaçado.
É ali, no tear, que Senhorinha Gonçalves, com o tradicional lenço florido algarvio descaído da cabeça para o pescoço, passa a maior parte dos seus dias.
“Tenho amizade a isto”, justifica-se a tecedeira, menos de metro e meio de mulher a quem os anos não parecem pesar, tal como sucede com o marido. Tanto na destreza
física que ainda mantêm como na ligeireza da fala e do raciocínio.
Levanta-se do tear para contar a sua história, que já se tornou motivo de atracção turística na pequena aldeia onde apenas resistem menos de uma vintena de idosos.
O relato revela uma história que começou por teimosia e agora se transformou numa atitude de resistência.
Neta de uma tecedeira, Senhorinha começou por ter que enfrentar a oposição da avó, que não a queria ver a tecer. “Não te metas no tear, que não podes”, argumentava, aludindo à figura franzina da neta, que nunca lhe deu ouvidos e acabou por levar a sua avante.
E aos 15 anos, recorda-se ainda, recebeu a sua primeira remuneração de 25 tostões por ter tecido uma manta de retalhos com cinco metros.
Pouco depois de casar, a ti Senhorinha, como agora é conhecida, deu outro passo fundamental para assegurar a actividade da tecelagem: comprou um tear por 250 escudos, o mesmo onde ainda hoje, passados 55 anos, continua a produzir os panos e as mantas que vende a quem a visita e nas muitas feiras de artesanato que frequenta.
Anos depois, surgiu um novo foco de resistência familiar ao trabalho no tear. Os filhos de Senhorinha e Manuel, que migraram para outras paragens, começaram a tentar convencer a mãe a abandonar o tear. Em vão.
“Deixem-me cá à minha vontade”, costuma responder à insistência dos descendentes, quando a tentam convencer a arrumar o tear, alegando que “já ninguém faz isso”.
Mas se a sua vontade lhe bastava para não abandonar a arte, nos últimos anos ganhou um novo argumento para continuar a tecer. Uma neta, agora com 23 anos, aprendeu a trabalhar com o velho tear, dando duas grandes alegrias a Senhorinha: tornou-se a primeira e única aprendiz da avó e assegurou a herança da máquina ancestral.
O marido é que não conseguiu arranjar sucessor para a sua quota parte no processo de produção do linho, que começa com a sementeira e vai até à fiação na roca, que já é função da mulher.
Ao todo, desde a sementeira até entrar no tear, o ciclo tem nada menos do que 56 fases, revela Manuel Gonçalves, cuja função na aldeia é, também, o último vestígio do motivo que levou a que o lugar fosse baptizado de Penteadeiros.
Para o antigo Monte das Pereiras foi uma vez morar um artesão que fabricava pentes para teares, facto que terá levado os habitantes a passarem a designar a aldeia por Penteadeiros, recorda-se Hermínia Justa, que, aos 84 anos, é a mais idosa dos 20 residentes que restam na povoação.
Mas se a desertificação é uma realidade naquela região algarvia, a persistência do “casal do linho” conseguiu dar uma notoriedade à aldeia que ela nunca teve quando antes do fluxo migratório para os centros urbanos do litoral.
Senhorinha e Manuel tornaram numa espécie de embaixadores do lugar, com um currículo de viagens ao estrangeiro a expensas da arte que teimam em não abandonar.
Além de uma agenda preenchidíssima com feiras e certames de artesanato por todo o país onde vão mostrar, com o apoio da Câmara de Alcoutim, uma actividade à beira da extinção, já tiveram oportunidade de se “exibir” no estrangeiro, nomeadamente na Irlanda e em Espanha.
O casal começa por desvalorizar o proveito que tira da actividade, mas acaba por confessar que “sempre é uma ajuda à reforma” de 29 contos que cada um recebe. Além do prazer de viajar. Mesmo que isso implique carregar a parafernália de instrumentos necessários para mostrar a arte.
Afinal, são aquelas maquinetas rudimentares que deixam espantados turistas e gente urbana a quem nunca ocorreu ao que eram obrigados os antepassados dos algarvios para se vestirem.
Por isso, em vez de assumirem sozinhos o papel de viajantes, preferem distribuir os “louros” pelos instrumentos de trabalho. É com este espírito que a ti Senhorinha gosta de contar que a roda-de-fiar “já andou de avião”.

Um jornalístico abraço.
António Martins Neves


2 Responses to “Os céus e as serras”

  1. 1 Miguel Marujo

    uma bela reportagem, António!

  2. 2 Rita Leitão

    Não há palavras suficientes que expressem a franqueza da nossa gente.Este é o verdadeiro povo português, que resiste heroicamente…longe do OE,dos “Magalhães”…

    Parabéns António e parabéns Luís, por darem a importância ao povo português, aos portugueses que de facto merecem toda a nossa atenção.


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