Os carniceiros de Santo Antão
Publicado por Fernando Peixeiro 5 Janeiro 2008 em Portugal.Caro amigo
Falei-te há pouco tempo da matança das cagarras que os cabo-verdianos teimam em fazer todos os anos em Outubro, pondo em risco a sobrevivência da espécie, que actualmente não chega a 15 mil exemplares. Mas há mais! Em Cabo Verde há outra ave que deverá ser a mais rara do mundo. Existem 9 casais. E também neste caso ninguém se importa.
Tal como as cagarras, o passarito de que estou a falar só vive no Ilhéu Raso, entre S. Vicente e S. Nicolau, e é também uma espécie única no mundo. Isto quer dizer que quando matarem todos os que habitam no ilhéu é mais uma espécie que extinguem na Terra.
O animal em causa é uma espécie de calhandra, da família das cotovias, e nesta altura deverá ser tão só a ave mais rara do mundo.
“Em 2004 havia no Ilhéu 250 calhandras, no ano passado 72 e este ano 18”, disse-me há dias o ambientalista cabo-verdiano José Melo, no que é corroborado pela avaliação de um biólogo.
Há uma esperança todavia! Os carniceiros que matam as cagarras são os mesmos responsáveis pelo desaparecimento da calhandra. Mas como na verdade o que eles querem é dinheiro não matam esta ave, não porque lhes tenha passado um surto de bom senso mas apenas porque a calhandra vale mais viva.
Imagina tu que há quem compre calhandras do Ilhéu Raso para as ter numa gaiola, porque pelos vistos o passarinho é simpático, amistoso e ainda canta bem.
Mas, infelizmente para ele, além da simpatia tem uma certa dose de burrice, fatal na maior parte dos casos. Tu chegas lá, sentas-te numa pedra, estendes a mão com umas sementes, e a calhandra vem alegremente pousar-se na tua mão. Já devia ter aprendido mas… olha… se ainda não aprendeu não sei se vai a tempo.
A calhandra é uma ave única no mundo, que só voa a 10 metros de altura e não consegue voar mais do que 30 metros de comprimento, pelo que está confinada ao Ilhéu Raso. As dificuldades de locomoção que as poderão ter protegido durante muito tempo estão agora a extingui-las, porque os tais carniceiros, ao que me disseram de Santo Antão, descobriram que as podiam apanhar para vender como adereço.
Se há uma esperança, porque os animais não são mortos, fico a perguntar-me que esperança será esta se uma ave fechada numa gaiola não se pode reproduzir. E depois, raio, a ave deixa-se apanhar facilmente e os tais gajos não precisam de esperar para Outubro, vão lá em qualquer altura, porque as autoridades… (risos, gargalhadas).
E isto irrita-me. Apetecia-me mandá-los para a senhora que os deu à luz.
Olha…, não te digo mais nada. É o último fim-de-semana que passo em Portugal porque na segunda-feira já regresso ao paraíso das espécies protegidas e não me apetece passá-lo irritado.
Um abraço
Fernando Peixeiro



Obrigada pelo teu artigo.
Queria só dizer-te para não desanimares…
Tu tens poder! Reclama! Denuncia! Liga para os MAA de cada ilha e chateia-os! Eles têm que fazer cumprir a lei! Escreve às altas autoridades se for preciso! Faz um filme, escreve mais, não te cales!
Esse património é teu e dos filhos de Cabo Verde que hão-de vir.
Defende-os que eles ainda não têm voz…
Une-te a um grupo que partilhe as tuas ideias! Façam campanhas nas escolas, boicotem a venda ilegal…
Tu podes fazer a diferença!
Força!
RV