Distante Fernando,

a vida confronta-nos com estes dilemas, que eu sei te surgirem como desafios para o pensamento e para pereceber onde nos leva a humanidade. O último, acho eu, é o daqueles mafiosos, traficantes, assassinos do pior recorte, condenados a prisão perpétua em Itália, que pedem para morrer. Querem ser mortos em vez de ficarem a vida toda privados de liberdade. Pena não terem pensado nisso antes de matarem e prejudicarem a sociedade da forma que o fizeram com base nos valores mais desdenhosos que se encontram por cima da crosta da terra. São 1.300 os autores de tal petição que  está a criar mais um debate num país democrático.

Como facilmente se depreende, Fernando, o que essas criaturas pretendem é relançar o debate sobre a prisão perpétua e não que os matem por estarem enfadados com a reclusão.
Avaliemos de quem se trata: por um sistema judicial ocidental só pode ser condenado a uma vida inteira atrás das grades quem, repetidamente, matou os seus semelhantes,  violentou o estado e a sociedade onde vive de um modo propositado e com consequências devastadoras. Estamos a falar de pessoas que terão colocado a questão nos termos de tornar um país (ou o mundo)  no “paraíso” do crime, onde mandariam os mais fortes e os mais ricos. Mas perderam, felizmente.
Agora queixam-se da monotonia que é estar preso a vida inteira. Azar, digo eu.
Portugal foi o país que acabou em primeiro lugar com a pena de morte e estará no topo dos que primeiro rejeitaram a prisão perpétua. Visto daqui, desta terra pacata, parece adequado. Mas se pensarmos em crime organizado, que se bate por dominar cidades,  matar juizes, dominar de facto um país, sem olhar a meios para banalizar o tráfico de droga e destruir uma sociedade pela raiz, aí iremos ter que reflectir melhor. Ficarem 25 anos presos, como é o máximo permitido em Portugal, fará desses cavalheiros pessoas capazes de regressar à sociedade que quiseram destruir? Tenho dúvidas.  Eles não falam em arrependimento. E ninguém que tem um percalço é condenado a ficar o resto da vida preso. Portanto, o que resta é cumprir a lei: quem fez o que os tribunais concluíram sobre aqueles condenados não merece o bem mais precioso que é a liberdade. Nunca mais! Queixem-se, esperneiem, mas não lhe demos a atenção que não merecem. Optaram por não viver na civilização, quiseram destruí-la, e ela não pode ceder e amolecer com quem a quis matar. Que fiquem só ali, à espera da morte que nos desejaram e que em muitos de nós praticaram.

Um vivo abraço.

António Martins Neves