O verdadeiro tiro no pé

Desarmado Fernando,

costuma-se usar em sentido figurativo, mas desta venho trazer-te a verdadeira história de um tiro no pé. Não foi nenhum político que deixou fugir as palavras que não queria, afirmando verdades que não podia. Não. Foi mesmo um homem que deu um tiro no próprio pé. Dirás que é uma história marginal, apenas insólita, sem consequências dignas do conhecimento público, mas é tão raro suceder que se tornou notícia em quase todos os jornais daqui.

Aconteceu em Viana do Castelo e o autor do disparo não terá sido empurrado nem admoestado por ninguém para dar ao gatilho. Terá sido mesmo mau manuseamento da arma que trazia…no bolso, precisou a polícia. Acontece ainda que o atirador, de 42 anos, estava em casa, ao final da tarde. Em casa e com a arma no bolso. Um revólver calibre 32, ilegal, sem qualquer registo e nas mãos de um atirador sem licença nem porte de arma. Pudera! Só assim se explica que por “mau manuseamento” da pistola o homem tenha dado um tiro no pé esquerdo, perfurando-o. Imagina se a arma não estava apontada para baixo…Adiante.

Como em todos os casos, quem dá um tiro no pé tem dificuldade em assumir. Olha o caso do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, que disse que a Margem sul do Tejo era um deserto onde jamais se podia construir um aeroporto! Agora já defende que a nova estrutura aeroportuária de Lisboa deve ficar lá, em Alcochete, onde ele dizia não haver nada, como no Sahara.

Na mesma senda, o homem no Minho também chamou socorro, mas depois voltou a trás. Eu explico: relatam as notícias que a família telefonou para a emergência médica a alertar para a existência de um ferido e logo a seguir fez um telefonema a negar o que anteriormente havia dito. Pior a emenda que…Claro que a polícia foi lá, mas nessa altura já a família tinha levado o auto-disparador para o hospital, onde as autoridades foram dar com ele. Acabou por ser tratado, ter alta e agora está a ser investigado pelo Ministério Público. Tudo dentro da normalidade judicial.

Mas há quem dê tiros nos pés e por serem de pólvora seca nunca ninguém os investigou. Aquele fez um disparo a sério que lhe varou o pé de cabo a rabo e agora tem a justiça à perna. É ingrato este mundo, Fernando. Quando se dispara e se falha o alvo não acontece nada, quando se dá o tiro no próprio pé…leva-se mais um entalão.

Moral da história: nunca andes com um revólver dentro de casa, jamais o coloques no bolso das calças e não te ponhas brincar com ele…

Um advertido abraço.

António Martins Neves