Caro amigo

Já viste como é frequente ignorarmos as coisas importantes e concentrar-nos em pormenores efémeros? Com as pessoas é a mesma coisa. Um participante no Big Brother de repente é mais conhecido e acarinhado do que um grande escritor, ainda que seja analfabeto. E um actor de uma novela da hora de jantar, mesmo que saiba tanto representar como eu ou tu, torna-se mais importante do que um cientista, um investigador ou um grande repórter.
Em Cabo Verde todos os dias “tropeço” em pessoas com grande valor, não “Torgas” mas numa dimensão diferente, claro está. Não te vou aqui maçar com um rol de histórias de pessoas mas deixo-te só dois exemplos, “tugas”, para compensar o que dizemos mal dos portugueses nestas nossa cartas.
Um é o da Catarina. Tirou um curso de comunicação social e como não arranjava emprego em Portugal toca de fazer as malas e rumar a Cabo Verde. Conhecias cá alguém? Tens cá família? – Perguntei-lhe eu há uns tempos, quando a conheci numa conferência de imprensa do governo. Não, disse-me ela, na altura ainda cheia de dúvidas sobre se teria feito bem embarcar naquela aventura e desembarcar num país estranho, sem casa para morar e ainda por cima com um salário que até nem é assim tão elevado. Confesso-te que quase senti vergonha das minhas “mordomias”. Eu que cheguei a Cabo Verde já com uma casa garantida, um ordenado discutido e sobretudo sabendo ao que ia. E mesmo assim com tantas dúvidas. A Catarina não. Encheu-se de coragem e mandou-se de cabeça, sem fechar os olhos. Não é, caro amigo, para todos.
Agora, passados oito meses, não lhe encontro qualquer arrependimento. Devias ver como os olhos lhe brilham quando me fala dos novos amigos que arranjou na Cidade da Praia, da nova casa que tem, das noites de Cabo Verde, das ilhas ou do jornal onde trabalha. Brilham-lhe tanto como quando vem à conversa as saudades que tem de casa, Guimarães, da família e dos amigos. Como quando conta os dias que faltam até Dezembro para, quase um ano depois, voltar um mês de férias a Portugal. Não tenho dúvidas que voltará, ainda mais, uma grande mulher.
Outro é o Nuno. Professor na Universidade do Algarve, conheci-o uma noite na Praia, à porta do Centro Cultural Português, quando estava a preparar-se para ir apanhar um autocarro para Praia Baixo, uma localidade a meia hora de caminho da capital.
Não sei como chegou a Cabo Verde porque nessa noite estava já a poucos dias de ser, ali, pai de uma menina e era em Praia Baixo que o esperavam a mulher, os sogros e os cunhados.
Dividindo-se entre as aulas na Universidade e Cabo Verde sempre que pode, até pelas saudades da mulher e da filha, o Nuno está há dois meses a desenvolver uma campanha de defesa das tartarugas marinhas que nesta altura desovam nas praias do país.
Tem um projecto científico e bem estruturado, tem ideias, tem algum (pouco) dinheiro para o implementar, e tem sobretudo uma grande vontade de mudar as mentalidades de um povo que ainda acha que se as tartarugas são para comer.
Por esta altura passa as noites de frontal na cabeça a percorrer as praias, a tentar evitar as matanças, a identificar e filmar as tartarugas que vão aparecendo, acompanhado do primeiro cabo-verdiano que arregimentou para a sua causa, o Elson, um jovem que de caçador se tornou um defensor da vida animal, até porque são essas novas opções que lhe pagam um pequeno salário mensal.
Só uma vez vi o Nuno desanimar, depois de mais uma noite de “confronto” com os caçadores de tartarugas e na qual não conseguiu salvar um dos animais. Nesse dia disse-me que lhe apetecia abandonar o projecto, porque não era possível impedir aquela prática nem mudar mentalidades geracionais. E disse-me que às vezes lhe apetecia pagar aos caçadores o preço de cada tartaruga que apanhassem para assim as poder salvar. Mas também me disse que não o ia fazer, porque assim estaria a contribuir para o lucro de uma actividade ilícita e possivelmente até para o aumento dessa criminalidade.
A Catarina e o Nuno, ao que julgo, nem se conhecem. A esta hora ela lá estará se calhar a jantar com os seus novos amigos, preparando-se para depois ir acabar uma notícia ou até para ir beber um copo. Ele estará a dar um beijo de despedida à mulher e a pegar na lanterna para mais uma noite de vigilância das praias, à procura das tartarugas e dos seus predadores.
Eu gosto deles. Acho que são dois bons exemplos do que é ser uma grande pessoa. Nunca lhes perguntei se gostam de Torga. Mas tenho quase a certeza de que o Torga também gostaria deles.

Um afectuoso abraço
Fernando Peixeiro


2 Responses to “O Torga também gostaria deles”

  1. 1 Camarada Choco

    Divulgação

    Mais um Blog que se tornou um Livro!

    Filme da apresentação disponível no YouTube em “Camarada Choco”

    http://www.camaradachoco.blogspot.com

  2. 2 Antonio Martins Neves

    Caro Choco.
    Agradeço a visita e ainda mais o comentário. Quanto à questão do “livro” é uma opinião, não sustentada na realidade. Esta página é só aquilo que vem bem explícito na apresentação e nada mais. E algo que nos dá muito prazer escrever. Se houver mais quem se divirta, tanto melhor. Continue a navegar neste oceano.

    Um abraço.

    António Martins Neves