O Torga dispensa-os…

Sereno Fernando,
hoje escreve-te um amigo amargurado. Não meto as questões pessoais nas cartas que te dirijo, mas acho que as barracadas públicas devem ter destaque. Para que não se repitam, sonho eu. Passo a contar-te: fiquei possesso com a ignorância a que o Governo devotou os 100 anos do nascimento do escritor Miguel Torga. Sempre tão solícitos a inaugurarem uma estrada, um aqueduto, a apresentar um quadro numa escola com meninos contratados para aparecerem na televisão, e depois ignoram alguém muito superior a eles todos. Maus sentimentos.
Não houve um secretário de Estado para estar na cerimónia, qualquer um, nada, ninguém, ignorância ostensiva. Porque será? Preocupante, Fernando…
Isso revela que eles ignoram que aquele médico está entre os portugueses mais brilhantes. E quem governa tem que conhecer o país e as pessoas. E quando não sabe, pergunta. Natural. Não tem que saber tudo. Mas ignorar um homem daquela calibre parece ser suicídio inconsciente.
Deixou uma autêntica enciclopédia sobre o país. Que percorreu a pé, que sentiu como poucos de nós, que viu, com olhos de ver. Não se limitou a olhar. Não viu estradas e auto-estradas nem centros comerciais, que não existiam e detestaria. Viu um povo como ela era – e ainda é. Desprezou mordomias das que se praticam todos os dias. Valorizou pastores, camponeses, o povo de quem nós descendemos e procuramos não perder as raízes. E viu-os a sobreviver. Viu-nos a crescer. Anteviu, isso também está lá, nos seus livros, que este projecto de país não ia ser um sucesso.
Confrontado com a ida para o seminário ou a emigração no Brasil, optou pela segunda. Começou aí uma das obras mais geniais que conheço (não conheço muitas, seguramente), chamada “A criação do mundo”.O que eu me orgulho do autor daquele livro ser meu compatriota e falarmos a mesma língua…Confesso-te, fazendo-o pela primeira vez a alguém, que o dia da morte de Torga foi dos mais agrestes e amargos que passei- excluindo a morte de familiares e amigos. mas segui-lhe o exemplo e guardei o que senti só para mim. Vejo a sua obra ao nível do “Viver para contá-la”, do Gabriel Garcia Marquez. Mas noutro patamar. Há distinções, Fernando. Só que qualquer dos livros muda algo na vida de quem os lê e isso é que deixa marca, é que nos enriquece por dentro. Nos abre os olhos para o mundo que nunca conseguiremos alcançar por mais vasto que seja o nosso olhar, a nossa capacidade de ver e reter, sem fotografias. Só a alma. Tenho os dois ao lado um do outro aqui na estante. E outros mais do Torga, o  médico Adolfo Rocha que escolheu para pseudónimo o nome que se dá à raíz da urze, das madeiras mais rudes e difíceis de trabalhar que se conhecem.
Aconteceu que foi nesta terra que ele nasceu e teve o  dom de contar como poucos, conheceu-nos a alma, tinha aquela capacidade de olhar sem dizer nada, sem comentar mas a ver como ninguém o barro de que éramos moldados. E bastava-lhe isso. Quando a academia francesa decidiu distingui-lo, gesto inédito perante um não francófono, o transmontano que assentou arraiais em Coimbra para ser médico, recusou deslocar-se a Paris para receber uma “taça”, que era bem “brilhante”, por sinal. Se fizerem muita questão de me dar isso, fez saber, venham cá entregar-ma a Coimbra. E os franceses, noutro gesto inédito, vieram…
Agora, Fernando, para vergonha de nós todos, nenhum dos nossos ministros e secretários, do Governo eleito pelo povo que Miguel Torga tão bem retratou, foi capaz de ir a Coimbra marcar presença no centenário do seu nascimento e dizer que quem dirige o país reconhece um homem grande e raro que tinha feito 100 anos domingo se a morte tivesse esperado. Sabes uma coisa, Fernando? Venham eles todos juntos, adicione-se o bem que eles trouxeram à nação e vamos ficar com mais um défice para manchetes. O Torga, só por ser como era, foi muito superior. Estes, por quererem ser o que jamais conseguirão, vão desaparecer sem que ninguém dê pela sua falta. Pensem e ajam com alma (se a tiverem). Vão ver que se sairão menos mal. Antes pobre e limpo do que rico e perfumado.

Um rochoso abraço.

António Martins Neves


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