O ser e o parecer

Letrado Fernando,

estive quase para te poupar a mais esta polémica que assentou arraiais por aqui, mas não resisti. Porque é demasiado importante e mesmo estando sem internet, não podes perder o que vai na praça com as habilitações do primeiro-ministro desta nação ou a forma como foram obtidas. Lembraste de te ter falado do país dos doutores e engenheiros? Bem, o tema navega nesses mares e há quem, erradamente, esteja a colocar o assunto nesse patamar.
Sabemos como é importante a formação das pessoas. Basta ver as estatísticas. Os países mais desenvolvidos são aqueles onde as pessoas mais estudam, mais se capacitam, adquirem mais conhecimentos…Fazem-no, normalmente em escolas, universidades, mas com rigor. O que realmente importa é saber. Ter um diploma é uma consequência disso, é a confirmação material do que se aprendeu. Inverter as coisas tem um toque de desonestidade e de fanfarronice. Neste grupo estarão muitos dos que não dispensam, e até exigem, ser tratados pelo título académico.
O que tem ateado a fogueira que por aqui lavra são alegadas provas que apontam para que o chefe do Governo, José Sócrates, teria sido privilegiado quando frequentou a Universidade Independente e obteve um atestado de que terá terminado uma licenciatura em engenharia civil.
É óbvio que, se não for engenheiro, isso, por si só, não o menoriza em nada, na minha perspectiva. Deve apenas, e só, ser avaliado pelo seu desempenho enquanto primeiro-ministro.
Só que a a licenciatura que exibe foi obtida numas circunstâncias que o acusado, em largo espaço televisivo, se esforçou por esvaziar, em muitos casos com o recurso à palavra, que deve ser valorizada nas pessoas honradas mas sustentada em mais do garantias verbais.
Só que os factos apontados, a serem verdadeiros, criam a ideia de que ele teria sido favorecido para terminar o curso. O exemplo mais evidente é uma prova de inglês técnico, a única que teria realizado na disciplina, e que terá sido feita – relatam os jornais- em casa e enviada por fax para a Universidade em data posterior àquela em que a instituição atesta que concluiu a licenciatura. Será isto normal? Provas realizadas em casa é um bom critério de avaliação, Fernando? Será ilegítimo pensar que perante uma oportunidade assim um amigo mais fluente naquela matéria não nos dá uma ajuda? Não ficamos em vantagem perante os nossos colegas? Ou todas as provas daquela cadeira (e de outras?) podiam ser feitas em casa e calmamente enviadas por fax quando lhes aprouvesse? Tenho dúvidas, Fernando. E sou adepto daquela máxima que diz “não basta ser sério, também é preciso parecer”.
Depois há o facto do certificado das partes do curso feitas noutros estabelecimentos terem sido entregues cerca de um ano depois de ter iniciado as aulas na Independente. Curto: a sua matrícula foi aceite com base na palavra. Normal? Não me parece. E faziam isso a todos os candidatos? Eu, tu, nós chegávamos lá, dizíamos que tínhamos estudado aqui e ali, concluído estas e aquelas disciplinas e pronto! Assine aqui que está matriculado e pode pagar a propina. Quando puder, e lhe der jeito, traga lá então o certificadozinho…
Bom, a Universidade poderia funcionar assim, mas o mínimo de integridade impõe não se aceite jogar qualquer jogo que nos proponham. Há regras e métodos de aferição fundamentais para saber se as pessoas adquiriram os conhecimentos que alguns depois não dispensam ouvir quando se lhes dirigem. É uma questão de ética e de moral. Ou da falta delas. Como sabes, Fernando, e ao contrário de ti, não tenho qualquer licenciatura nem bacharelato. Não me sinto limitado no meu desempenho profissional por isso, embora seja óbvio que me teria enriquecido mais se a tivesse obtido. Mas com rigor. Para não me enganar a mim e aos outros. Se não, basta ir à net e comprar um diploma.
Tudo ganha contornos mais graves quando o líder de um país se deixa enredar assim em suspeitas que não se desvanecem com facilidade. E continuam a vir os pormenores, a avolumar-se os “casos”, os pormenores que não encaixam ou indiciam tratamentos anormais.
Não sei como isto vai acabar, mas temo que o chefe do nosso Governo acabe a não ser avaliado pelo seu desempenho político, ó Fernando. Quando nos pedem, e bem, que  valorizemos a honradez, a capacidade de trabalho, nos pedem esforço, que nos dediquemos ao país, que façamos sacrifícios, ver o primeiro-ministro envolvido numa teia destas, sem se conseguir libertar dela, não é reconfortante para ninguém. Volto a insistir Fernando: não basta ser, também é preciso parecer. Eu cá tenho ainda uma outra defesa que costuma resultar: avaliar terceiros pelo que fazem e não pelo que dizem. E não me tenho dado mal.

Um abraço honrado.

António Martins Neves