O regresso às trevas
Publicado por António Martins Neves 23 Abril 2007 em Portugal.Tolerante Fernando,
na passada semana um partido que teve nove mil votos nas últimas eleições saltou para a ribalta aqui em Portugal. Dizem-se nacionalistas, mas o grande objectivo deles é mandar os imigrantes todos embora. Colocaram um cartaz no Marquês de Pombal a dizer isso. Como somos um país livre, nada a fazer, dirias tu com o teu modo tolerante. Só que eles escondem o bacalhau debaixo das sopas, como diz o ditado.
Juntando as peças todas temos um grupo de pessoas que defende o nazismo, uma doutrina onde impera o fim da democracia , que permite formações legais dispostas a extingui-la. O presidente desse grupo de extrema-direita conhecido pela sigla PNR diz que não, que não é fascista nem nazi mas a Polícia Judiciária há dias prendeu um grupo de “cabeças rapadas” e outros seres afim a quem ele chama “camaradas”. Acontece que os seus “camaradas” deram vivas a Hitler quando iam, detidos, a entrar no Tribunal de Instrução Criminal, que mandou um para prisão preventiva e outros três para casa com pulseira electrónica (prisão domiciliária) acusados de incitamento ao ódio racial.
Reportaram-no os jornalistas que estavam lá à porta e não ouvi nem li que o tal senhor se demarcasse desse elogio a um dos maiores monstros da história da humanidade. Neste fim-de-semana que passou estava previsto aqui para Lisboa um encontro internacional de partidos do mesmo calibre, vindos de outros países europeus. Sabes quem foi convidado, Fernando? Uma formação que se diz herdeira do Partido Nacional Socialista, o que foi liderado pelo mesmo Hitler. Então se não é nazi porque convidou esse PNR uma formação assumidamente seguidora do nazismo?? Por engano, distracção, para fazer número?
O encontro não se realizou porque a Polícia Judiciária prendeu 30 indivíduos ligados à extrema-direita numa destas belas manhãs de Abril. Uns tinham armas, ilegais, presume-se, outros material que incitava a odiar quem tiver a cor da pele diferente e mais umas “miudezas” do género.
O tal senhor que lidera o PNR disse que não foi pela detenção desses a quem chama “camaradas” que o encontro internacional de nacionalistas foi cancelado. Argumenta ele, como fazem todos os que têm mau perder, que a culpa é dos jornalistas, que criaram alarmismo e classificam-no a ele e aos seus seguidores daquilo que jura não ser: fascista. Do destaque noticioso que teve o cartaz a mandar embora os imigrantes não se queixou ele, não…Pudera! Com uns escassos milhares de euros acabou com uma visibilidade maior do que a campanha de um banco. Garanto-te eu, Fernando.
O sujeito que ficou agora detido já cumpriu pena por ter estado envolvido na morte de um cabo-verdiano há uns anos no Bairro Alto e voltou a ser preso depois quando apareceu na televisão com uma espingarda automática que admitiu vir a usar um dia se fosse preciso sair para a rua defender a pátria, ou coisa parecida. A arma era ilegal, claro.
Mas uma coisa que essa gente não consegue explicar é porque carga de água acham que têm uma raça e incitam a odiar (no caso do Bairro Alto foi matar mesmo) os de outras supostas raças.
Pergunto eu, Fernando: mas que raça é a nossa, que cruzamos romanos com visigodos, mais celtas e berberes?? Teremos uma raça? Isso não será mais conversa de criador de cães??? Que tristeza…
É dos exemplos mais gritantes de que nós, os humanos, temos uma tendência enorme para regredir e voltar à idade das trevas, quando discriminamos alguém pela cor da pele, pela língua, pelo país onde nasceu…
E ouvir uma criatura querer mandar de volta os imigrantes que escolheram o nosso país para viver e construir pontes, estradas, expos e outras obras de regime roça o doentio. Pela mesma lógica, ele deverá achar perfeitamente normal que os milhões de portugueses espalhados pelo mundo devam ser obrigados a voltar. Deve bater palmas quando os norte-americanos expulsam para cá pessoas que nasceram lá só porque têm problemas com a justiça ou cometeram crimes, como os seus “camaradas” alegadamente terão feito. Ele e os seus seguidores para onde quererão ser expulsos?
Um abraço democrático!
António Martins Neves



0 Responses to “O regresso às trevas”
Please Wait
Leave a Reply