Sortudo Fernando,
a propósito dessa digressão pelo arquipélago de Cabo Verde e pelos teus elogios à cidade do Mindelo, recordei-me que há uns anos conheci aqui em Lisboa um homem que vivia nessa ilha de S. Vicente. Trabalhava na Rádio Nacional e veio frequentar um curso a Lisboa, ao Centro de Formação de Jornalistas - CENJOR, com outros profissionais de informação de países africanos de expressão portuguesa. Chamava-se Luís Lobo e tinha sido o antecessor do conhecido Ildo Lobo como vocalista da famosa banda cabo-verdiana “Os Tubarões”.
Eram primos e, confessou-me o Luís, que nunca mais consegui reencontrar (e espero não estar a cometer nenhuma inconfidência por recordar esta história), Ildo entrou para o grupo para substituir o familiar. A banda tinha como regra que quem quisesse sair tinha que arranjar substituto e quando Luís quis afastar-se tentou convencer Ildo a ocupar o seu lugar. Tarefa difícil, contou-me ele. Que não queria, que não tinha jeito para cantar. Faria se tivesse. Como se veio a provar mais tarde, e muito mais nos iria deliciar com a sua voz eo seu talento, se não tivesse vindo aquela morte prematura.
Luís Lobo é branco, loiro, olhos claros, nasceu em Lisboa e foi viver pequeno para aí, como me contou. Manteve sempre casa em Lisboa, de família ao que me consigo recordar. Mas adquiriu das ilhas mais do que o sotaque. Tinha uma voz forte e quente, como a do primo. Quando terminou o curso de formação do CENJOR combinou-se a jantarada da praxe e não se fez a coisa por menos do que uma cachupa na então Feira Popular de Lisboa, onde ele tinha descoberto uma cozinheira de Cabo Verde que enobrecia o prato tradicional.
Recordo-me perfeitamente de ele me ter falado das actuações da filarmónica aos domingos de manhã no Mindelo, só que na altura, ou pouco tempo antes - desculpa-me alguma falha na memória mas isto foi-me relatado há uns anos e cito de cabeça - essa banda que animava as ruas da cidade tinha como regente nem mais nem menos do que Luís Morais, o célebre saxofonista que, diziam especialistas na matéria aqui, se tivesse nascido nos Estados Unidos poderia ter sido o maior saxofonista do mundo. Exagero? Não sei avaliar, mas lá que o homem era um génio musical, como outros aí, aliás, não tenho a menor dúvida.
Rezava a história contada pelo que acabaria por ser meu guia pela noite africana de Lisboa, que Morais nunca emigrou e tocava muito pouco no estrangeiro, apesar de não lhe faltarem convites. Invocava que a mulher detestava andar de avião. Ele tinha um emprego aí, já não me recordo qual, mas julgo que ligado ao mar, regia e ensaiava a banda filarmónica do Mindelo e tocava, como grande mestre, saxofone e clarinete.
A ideia que retive foi a da simplicidade que caracteriza todos os génios. Podia ter sido muita coisa, mas bastava-lhe ser feliz e fazer o que lhe apetecia onde mais gostava e o resto que fosse andando. Confesso-te agora que alimentei durante muito tempo a ideia de fazer um trabalho jornalístico mais extenso sobre Luís Morais - um livro, quem sabe. Mas a morte atravessou-se outra vez e levou o músico e o meu projecto.
Voltemos a Lisboa. Acabámos os dois - os restantes tinham afazeres ou viagens no dia seguinte - a percorrer as casa mais emblemáticas de música africana aqui na capital portuguesa. E chegados a uma delas, naquela da Rua do Sol ao Rato, que foi aberta pelo Bana, outro cantor de Cabo Verde cujo nome dispensa referências desinspiradas, a recepção foi calorosa. Os porteiros, os gerentes, toda a gente conhecia Luís Lobo. Só depois percebi porquê. Após uma severa insistência, o meu companheiro da noite lá se dispôs a subir ao pequeno palco onde tocava todas as noites um grupo de músicos cabo-verdianos. E fiquei a perceber porque razão ele me havia confessado que cantara em “Os Tubarões”. As mornas e coladeiras saíam-lhe da garganta forte carregadas de uma melodia suave e muito bem sustentada, cantada com o sentimento devido e indispensável. Interpretação de quem dominava aquela arte, embora amador.
Retenho ainda que me convidou para ir aí, para provar o grogue que produzia - e espero que ainda o faça - e dizia ser uma excelência. Assim já tenho dois convites para ir ao Mindelo, um para a Praia… e uma vontade enorme que já dispensa mais desafios.

Um invejoso abraço.

António Martins Neves


1 Response to “O “regente” Luís Morais e outras músicas”

  1. 1 Carla

    António.
    Gostei muito do texto.
    agora, se me permites uma opinião, acho que o projecto “livro sobre Luis Morais”, não deveria ter morrido. Seria um trabalho muito interessante.

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