Pacífico Fernando,
foi o pior murro do ano e isso tu tens que saber. O seleccionador nacional de futebol aviou um soco na cara de um jogador sérvio no final do jogo entre as duas selecções na quarta-feira. Está a tenda armada, como usa dizer-se. Quase 50 mil testemunhas presenciais no Estádio de Alvalade, em Lisboa, fora os milhões, que me atrevo a dizer, seguiam o desfecho daquele jogo infeliz passo a passo pela televisão, até aí em Cabo Verde, seguramente.
E a penúltima criatura, entre a multidão, a poder agredir alguém disparou um directo na cara de um adversário. E não foi só o homem de Belgrado, foi a pátria lusa toda que tremeu.
Um abalo sísmico passava mais despercebido, se não tivesse feito umas rachadelasnos Jerónimos. Uma murraça inqualificável de um homem supostamente experiente que perdeu a cabeça quando não o podia, nem pode, fazer.

O jogo correu mal, Portugal estava a ganhar, a Sérvia empatou, e Luís Felipe Scolari, no fim, desfecha uma lamentável e desprezível pêra na cara de um jogador sérvio. Se fosse coisa pessoal resolvia-se lá num canto, onde ninguém visse. Para isso serviam os duelos na Idade Média. Entre profissionais de futebol as regras, que dizem existir, serão outras.
Atenção: estamos a falar de um homem que já foi campeão do Mundo à frente da selecção brasileira e como treinador da nossa dita “equipa das quinas” conseguiu umas graçolas, nada que tenha conseguido manter. Só que de futebol eu sei muito menos que o desejável para me pronunciar sobre a matéria e recuso-me a ser treinador de bancada, porque raras vezes lá me sentei.
Sei é que um homem  com a responsabilidade que ele tem não pode agir assim como um garoto, perder a cabeça por causa de um resultado…Uma humilhação agora nas instâncias da UEFA para Portugal. Nós, que já andamos atrás em tudo, também vamos ter que nos sentar no banco dos países que têm seleccionadores que agridem adversários em provas oficiais. Fazemos o pleno. Desporto, Fernando? Qual desporto? Ética desportiva? Onde morreu ela?
Nada me move contra Scolari, mas acho inadmissível a sua atitude. Não é, não pode ser, nenhum rapazola incapaz de controlar os ímpetos. Por isso, não lhe basta pedir desculpa. Nem ter ido hoje a correr ser entrevistado na RTP, numa atitude que me atrevo a rotular de branqueamento por parte do canal público. A bola a liderar…
Já éramos maus em quase tudo, agora vamos passar a ser os carrascos do futebol também. Aquela mística das bandeiras nacionais nas janelas já era. O promotor faliu, ou melhor, esmurrou a popularidade e a credibilidade conquistadas. Enquanto Scolari estiver por cá, e nada garante que não volte a perder a cabeça, vamos ter que arranjar outro símbolo nacional. A selecção de futebol vai entrar de quarentena. Triste história a deste homem que já foi feliz. Agora pede desculpas. Ninguém lhe disse, se calhar, mas ele tinha obrigação de saber que essas evitam-se, não se pedem. E que sirva de exemplo ao povo. Esperemos que a ética impere ou então vamos mesmo ter que investir num grande bananal de Faro a Viana do Castelo. Deixa-me só dizer-te, Fernando, que ontem, escassos minutos depois da “cena”, já circulava na Internet uma petição para o seleccionador ser despedido. Não podia assinar. É uma questão de carácter. No caso de uma figura pública paga por verbas do Estado português, tem que ser o próprio a ter o carácter de tomar a decisão. Ainda não o fez e só pediu desculpas e disse que ficaria à espera que outros decidissem por ele. Parece um homem sem vontade. A sorte é que é só um treinador de futebol. Mas parece contagiado pelos governantes, ó Fernando. E deu o pior murro do ano, com o país que representa todo a ver.

Um humilde abraço.

António Martins Neves


3 Responses to “O pior murro do ano”

  1. 1 HAMITON RODRIGUES

    Caro António Neves
    Não concordo com os seus comentários. Eu esta lá, junto ao “acidente”
    e é lamentável que a TV não mostre toda a sequência do acidente.
    1º) a confusão eniciou-se ainda dentro do campo e então alastrou-se
    para junto do lateral do campo.
    2º) não foi muito feliz a “tentativa de agressão) mas posso garantir que
    tentativa de agressão do FILIPÃO não se consumou; não chegou a
    tocar-lhe; o atleta só fez teatro.
    3º) o FILIPÃO além de defender a sua honra pois foi agredido verbal-
    mente em relação à sua família, tentou foi defender os jogadores
    portugues; isso não quero dizer que aprove a atitude dele.

    Caro António, Caro Fernando temos que saber os acontecimentos e
    não falarmos porque ouvimos e lemos o que os outros comunicam
    sem terem assistido.
    Um abraço para todos

  2. 2 Antonio Martins Neves

    Grato Hamiton, pelo comentário.
    Se bateu na cara do jogador sérvio ou não é irrelevante: tentou! As imagens não esclarecem, mas isso não tem grande siggnificado. Toda a gente viu o homem de punho erguido contra o jogador. É importante se tocou ou é relevante o gesto…? As pessoas não têm estatutos especiais, acho eu. Posto isto, se tocou ou não e como dizer que a terra está perto da Lua ou o inverso.
    Abraço.
    António Martins Neves

  3. 3 mat

    Querido António,

    O Filipão tem a seu favor aquele jeitinho brasileiro, o que é logo meio caminho andado para os nossos corações derretíveis (falo por mim).
    Depois, vem aquele ar de paizão protector, embora de mãozinha leve, figura pelo qual muitos de nós ainda sentimos uma certa nostalgia (não eu).
    Por fim, há o passado: o cara pôs a malta de lagriminha ao canto do olho a sentir orgulho do país, apesar de tudo o que não tem e que devia, por humano direito, ter (a malta, não o cara).
    Mas, factos são factos. E o facto, como muito bem dizes, é que ele teve o tal gesto que não devia ter tido. Ainda para mais num sítio incendiável como é um estádio de futebol cheio de adeptos com as emoções à flor da pele, ansiosos por se poderem libertar das
    diárias angústias, humilhações e frustrações. E a libertação tanto pode vir pela a alegria da vitória como pela violência do mau perder, não é? Isto, sem contar com os grunhos verdadeiros que querem mesmo é bater em alguém, de preferência mais fraco. Num contexto destes, é quase imperdoável que quem deve funcionar como modelo perca a cabeça.
    Com a agravante de não ter de imediato reconhecido o erro e pedido desculpa logo ali . E de ainda vir com aquela conversa parva e machista do “ele ofendeu mámãe”.
    Mas deve o homem ser crucificado e afastado dos relvados? Bom, não exageremos, mas lá que tem de levar uma punição, tem, até por uma questão de exemplo.
    Neste momento, quem não queria estar na pele dele era eu, com o futuro ameaçado e, pior do que tudo, com a senhora Scolari à perna …

    bj
    Mat