O petróleo, esse ouro cada vez mais negro
fechado Publicado por António Martins Neves 22 Maio 2008 em Portugal.
Circunspecto Fernando,
hoje venho retribuir-te na mesma moeda e falar de um assunto sério: a escalada dos preços dos combustíveis. Calculo que aí a situação não seja melhor do que aqui. Quanto mais sobem a gasolina e o gasóleo mais nos afundamos nós, o país todo, para pagar as exorbitâncias que custa a energia que move quase tudo. Com excepção dos accionistas da Galp, que tem o monopólio da refinação do petróleo e a maior quota do mercado de revenda ao público.
Deve ser por isso que há uma guerra de informação com tanto ruído que não ouvi nem li ainda nenhuma explicação convincente que esclarecesse por que raio é que os combustíveis sobem vertiginosamente quando as reservas conhecidas têm aumentado e a cotação dólar em que é pago o crude não pára de baixar.
Um negócio de milhões, para a empresa que refina, para a maioria das que vende ao público e uma autêntica mina de ouro para o Estado, com a receita dos impostos cobrados na venda dos combustíveis a aumentar de cada vez que os preços são “actualizados”.
Disse-te há dias que em menos de quatro meses os preços nas bombas aumentaram 18 vezes. Faz-me lembrar aquela foto que fez sucesso há uns anos tirada à porta de uma casa de câmbios de um país de Leste onde se mantinha o dia todo a cadeira para cima da qual o empregado tinha que subir de cada vez que actualizava a cotação das moedas num quadro onde mudava os números manualmente. Os valores alteravam-se a um ritmo que nem valia a pena tirar a cadeira, pois passava o dia a subir e a descer para acertar as cotações.
A única forma de inverter a situação – ouve-se dizer a quem supostamente tem credenciais na matéria – é aumentar a extracção de petróleo. Com uma oferta maior que a procura, o preço baixa, de acordo as regras do mercado. Mas, seguindo a mesma lógica, não se entende que sem escassez o custo cresça da forma a que se está a assistir. Perante isto, o Estado regulador tudo o que fez foi pedir à Autoridade da Concorrência, já lá vai mais de uma semana, que esclareça, com urgência, se há algo de anormal nesta realidade. Antes de qualquer conclusão, eu posso adiantar-me e dizer que não é preciso nenhum estudo para ver que o país se afunda a um ritmo cada vez maior. Neste cenário, o primeiro-ministro foi hoje ao Parlamento anunciar que aumentava os abonos para os filhos das famílias mais carenciadas e congelava os aumentos dos passes sociais até ao fim do ano…Tudo dentro da normalidade, portanto.
Hoje fico-me por aqui, com a promessa de na próxima carta falar da indiferença com que os nossos governantes lidaram nos últimos anos com a questão dos combustíveis, sem tomar medidas que incentivassem a opção por energia mais barata e menos poluente.
Um agastado abraço.
António Martins Neves


