O país dos ricos apinhado de pobres
fechado Publicado por António Martins Neves 24 Maio 2008 em Portugal.
Exausto Fernando,
tinha prometido escrever-te hoje sobre o desprezo a que os sucessivos governos têm votado a questão dos combustíveis e a sua inerente poluição, mas atravessou-se no caminho algo mais grave e urgente. Estudos da União Europeia vieram confirmar aquilo que é evidente: Portugal é o país comunitário onde a disparidade na distribuição dos rendimentos é maior. Traduzindo em linguagem comum, por cá os pobres estão a ficar cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. Claro que o Governo veio logo a correr dizer que os dados eram de 2004, que já tinham sido corrigidos e a realidade actual é outra. Mas não apresentou números. E, por mera observação da realidade, tudo indica que agora, quatro anos depois, é ainda pior.
Há escassas semanas o Banco Alimentar Contra a Fome realizou mais uma campanha de angariação de géneros para dar de comer a uma multidão cada vez maior de pobres, pessoas, muitas com emprego, que já não conseguem pagar a própria alimentação. São mais de 200 mil os beneficiários daquela instituição não-governamental e o número não pára de crescer, diz quem acompanha a realidade no terreno. Hoje mesmo a associação de consumidores Deco veio anunciar que os pedidos de ajuda de famílias endividadas aumentou 44 por cento nos primeiros quatros meses deste ano relativamente ao mesmo período de 2007. O Banco de Portugal veio também dizer que o crédito mal parado, de famílias que não conseguem pagar os empréstimos que fizeram, atingiu valores recorde e ultrapassa já dois mil milhões de euros.
Em contrapartida, não deixam de se ver todos os dias cada vez mais carros topo de gama nas ruas e os mediadores imobiliários reconhecem que as casas de luxo continuam a ser as mais fáceis de vender.
Sempre achei que um dos mais graves problemas do país era a má distribuição da riqueza. Cada vez é maior o fosso entre o topo e a base, entre os gestores e os operários. Os primeiros ganham 23 vezes mais que os segundos, em média. A consequência disto tudo é que enquanto um enorme número de pessoas – muitas centenas de milhar, milhões? – está mergulhado já na pobreza ou caminha a passos largos para um beco sem saída à vista, outros enriquecem cada vez mais. Sejam gestores ou accionistas de empresas que acham não ter qualquer responsabilidade social e regem a sua política com o único objectivo de dar o maior lucro possível. O resultado está à vista, Fernando. É óbvio que ao contrário do que dizem os administradores que recebem ordenados de dezenas de milhares de euros, as empresas têm um papel fundamental na sociedade e, como o comum dos mortais, não podem enterrar a cabeça no dinheiro e ignorar que a ética é transversal e nos obriga a todos. Eles, pessoas bem informadas, sabem que os países com melhores indicadores de nível de vida são aqueles onde o leque salarial é menor. Onde os assalariados têm vencimentos que lhes permite viver com dignidade e os administradores recebem muito menos que cá e têm desempenhos que não são inferiores. Porque são responsáveis e sabem – como cá também sabem mas os exemplos exteriores só são citados quando convém – que uma sociedade não pode ser gerida pela lei da selva e todos temos responsabilidades sociais que não podemos ignorar. Por maioria de razão os mais ricos. Eles ainda não pensaram nisto, mas qualquer dia as pessoas não têm dinheiro para comprar os combustíveis que enchem os cofres das petrolíferas, a electricidade que engorda as empresas energéticas ou os créditos que tornam os bancos o melhor negócio do país. Olha, se calhar depois pegam no dinheiro que está nos paraísos fiscais para não pagar impostos e vão viver para onde lhes apetecer, sugar outros desgraçados até à medula.
Vai assim por cá a vida. Gostava de te falar de coisas boas e divertidas, mas com esta realidade até o optimismo inflaccionou de tal modo que quem vê cada vez os meses a dilatarem e o ordenado a encolher até já quase não consegue ter esperança, mesmo sendo das poucas coisas que ainda não se paga.
Um abraço pessimista.
António Martins Neves

