Memorado Fernando,
hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, em Maubisse, quando estive lá, antes da independência e depois da devastação indonésia causada por militares e milicianos. Não me enganei. Foi o padre que entrevistei em Mauibisse – a “Sintra timorense” – na horta, de galochas, quando preparava a terra para semear batatas.
Encontrei nos arquivos da Lusa uma reportagem e uma notícia que escrevi depois desse encontro com o novo bispo timorense. Achei que gostarás de ler, por isso seguem junto.
Um abraço à malai.
António Martins Neves
A primeira:
Maubisse, Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) – “O prior é aquele senhor ali”, disse o sacristão apontando para um grupo de homens que cavava um terreno inclinado nos arredores de Maubisse. Um timorense de chapéu à “Cowboy”, galochas e lenço ao pescoço aproximou-se: “Boa tarde: Sou o padre Norberto Amaral”.
Quem chegue a Maubisse e procure o padre da paróquia é muito natural que lhe suceda o que ouviu hoje o enviado da agência Lusa: “o senhor padre está na horta”.
E lá estava o sacerdote, patilhas ralas até meio da face, 42 anos, enxada na mão, a preparar o terreno antes das chuvas que se adivinham para semear batatas, feijão e morangos.
A acompanhá-lo, outro padre, o vigário da paróquia, Mateus Afonso, que não pousa a enxada enquanto o seu superior fala da sua experiência de sacerdote-agricultor.
“Não gosto de ficar em casa, sentado na cadeira. E assim ensino o povo a trabalhar”, explicou, concordando que prefere ensinar a pescar do que oferecer o peixe.
Isto, enquanto as obrigações da paróquia não apertam. Quando voltarem os habitantes que fugiram das milícias e a situação normalizar, Norberto Amaral vai ter que dedicar menos tempo à horta e mais às almas dos maubissenses.
E poderá finalmente assumir a sua simpatia com a causa independentista de Timor-Leste, que conseguiu manter mais ou menos camuflada durante a invasão indonésia.
“Eles (milícias integracionistas) desconfiavam, mas consegui sempre que continuassem a falar comigo”. Por isso, evitou a perseguição de que foram alvo muitos dos outros padres timorenses, ficou sempre em Aileu e diz ter contribuído para evitar que fossem destruídas mais do que as 12 casas incendiadas na paróquia.
Ao contrário, o seu vigário que se assumiu abertamente apoiante da resistência à ocupação indonésia, teve que fugir e só recentemente regressou.
Para cultivar, com o seu colega, a horta e as almas.
Lusa/Fim
A segunda:
Maubisse, Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) – Maubisse quase não foi vandalizada pelas milícias integracionistas, que abundavam na vila. Mas houve que pagar um preço: seis milhões de rupias (120 contos) que, ironicamente, foram doadas pelo governo indonésio.
O plano de destruição da localidade estava pronto para ser executado, quando no dia 13 de Setembro um comerciante de Maubisse decidiu tentar a sorte e evitar que as casas fossem incendiadas.
Tinha recebido um subsídio de seis milhões de rupias das autoridades indonésias para desenvolver o seu negócio e propôs-se doá-los aos milicianos se partissem sem queimar as casas. O negócio foi aceite e apenas 12 casas foram queimadas, contou hoje à Agência Lusa o padre da localidade, Norberto Amaral.
O dinheiro não impediu, porém, que a população que não havia fugido da vila fosse levada para Timor-Ocidental. Mas só cerca de 700 pessoas tiveram que partir nos camiões do exército indonésio, quando milícias e militares partiram definitivamente, a 14 de Setembro.
Os restantes 16.800 ficaram nas montanhas dos arredores e já voltaram a casa, disse o prior.
Foi assim que a bonita localidade, situada numa cova rodeada demontanhas, se conseguiu manter quase intacta, ainda com muros de arbustos aparados a ladear algumas ruas e caminhos e uma grande igreja em construção há cinco anos.
Isto apesar do grande número de elementos da milícia Mahidi, que actuaram na região nos últimos tempos. “Até mulheres” faziam parte dos grupos paramilitares, disse um dos habitantes da localidade à Lusa.
Quanto à possibilidade de essas pessoas regressarem à região, o mesmo residente rejeitou-a: “Eles não voltam, porque se voltassem estes…”, afirmou, fazendo um gesto com a mão a simular o corte da garganta enquanto apontava para a sede local do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT).
Lusa/Fim

