Proprietário Fernando,
hoje ocorreu-me falar-te de um tema de economia, imagina! Eu nada dado a números, já te vejo de sorriso posto: o que virá aí? Vou-te contar uma ideia que me anda a atazanar há algum tempo. Porque carga de água é que nós não rentabilizamos melhor essa riqueza única e quase só nossa que é a cortiça? Continuamos agarrados áquela ideia de que se houvesse por aqui petróleo seríamos ricos e desprezamos por completo esse recurso de excepção, que além de não poluir, ajuda a combater a poluição, é renovável, pode aumentar ou diminuir consoante a nossa vontade e não tem adversários comerciais dignos desse nome e forma um coberto vegetal resistente aos incêndios.Nos próximos tempos vou dedicar-me a tentar perceber este mistério. Mas acho que me poderás ajudar a esclarecer tamanha dúvida, Fernando.
Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo. Espanha tem alguma, Marrocos também, outros países mediterrânicos igualmente, mas nada que se assemelhe à qualidade e quantidade da que é produzida por cá. Não direi nenhum disparate se afirmar que é a maior fonte de riqueza natural do país. Vale três por cento de tudo o que exportamos. Como disse, não temos petróleo, as minas são poucas e esgotam-se, as pescas estão pelas horas da amargura, o vinho lá vai andado, o azeite tem adversários pela frente que ameaçam abafar-nos definitivamente, e por aí fora. Em quase todos os sectores menos um: a cortiça. É o melhor isolante natural de temperaturas, humidade, som, não tem cheiro, é quase eterna se estiver protegida do sol e da chuva, tem uma resistência equivalente quase à pedra, não se deforma…uma infinidade de utilizações e qualidades que vão muito além da vulgar rolha. Sabias que já se fazem saias e calças de cortiça?
Os produtos sintéticos concorrentes são quase todos feitos de recursos esgotáveis, a começar pelo petróleo, e altamente poluidores, contribuindo enormemente para o aquecimento global que agora começou a fazer despertar as mentes dos decisores, depois de andarem há dezenas de anos a ser avisados por quem sabe do assunto e a responder com encolheres de ombros e adjectivos como “fundamentalistas”, “radicais” e outros que tais.
Que pensas tu que fariam países pequenos e pobres em recursos naturais como nós, casos da Áustria, Suíca, Dinamarca, se tivessem condições climáticas paraproduzir cortiça como nós??? Podes começar a alinhavar as ideias e quando acabares, para a semana, dizes-me…
Outro factor que muito pouco contribui para engrandecer esse nosso recurso é a ideia instalada de que a grande utilidade da cortiça são as rolhas para o vinho.São uma das muitas, mas talvez a que dê menos trabalho a fabricar. E depois quando os lobies estrangeiros dos produtores de vinho desencantam mais um argumento para tentar convencer-nos que tapar uma garrafa de tinto com materiais sintéticos (obtidos do petróleo, não renováveis, poluentes), ou alumínio (igualmente findável e poluidor) parece que cai o carmo e a trindade.Quantos revestimentos (interiores de casas, carros), carteiras, malas, guarda-chuvas, roupa…de tudo isso já se fabrica com cortiça, naturalmente saudável? Só que depois ninguém parece interessado em avançar, em promover um produto único assim.
Há dias um produtor avançou com uma possível explicação: a maioria da cortiça produz-se na região sul de Portugal, maioritariamente no Alentejo. Uma zona pobre, despovoada, que dá poucos votos e os políticos “investem” onde o esforço de convencer eleitores pode ser mais rentável. Esquecem o país como um todo, vê-se todos os dias. Talvez tenha razão…
Se calhar, resta fazer uma experiência: fabricar umas belas bóias de cortiça, enfiar uma no pescoço de cada um e propôr-lhes uma experiência radical: largá-los a meio caminho das Berlengas. Quem chegar primeiro a terra ganha uma medalha…de cortiça.
Um rico e reciclável abraço.
António Martins Neves

