Tolerante Fernando,

olha primeiro para a fotografia que te envio. O Carnaval já passou, não há manifestações de violência, deve ser uma brincadeira, pensarás tu. Mas não! É uma situação real de uma adolescente de 19 anos que gosta de andar assim presa por uma trela e ser passeada pelo namorado como se de um cão se tratasse. E, alegam eles, ninguém os pode impedir, porque que o fizer está a interferir na liberdade individual dos cidadãos. Isto passa-se no Norte de Inglaterra e foi noticiado na imprensa de lá, incluindo a BBC. “Comporto-me como um animal e tenho uma vida bastante calma. Não cozinho nem faço limpezas e não vou a lado nenhum sem o Dani”, disse a rapariga ao jornal Daily Mail, justificando a situação, para a qual fui alertado pela Maria João, citando uma notícia do PortugalDiário. E não penses que estou a ironizar por ires ler este texto no Dia Internacional da Mulher…

O casal foi notícia porque um motorista de uma empresa de transportes públicos os impediu de entrar na viatura alegando que a trela colocaria em causa a segurança dos outros passageiros em caso de travagem. Protestaram porque estavam a violar as suas liberdades individuais de andar como lhes apetecesse. Se ela gosta de andar de trela, ninguém tem nada a ver com isso. Parece válido, até certo ponto. Numa Europa onde se colocam dúvidas sobre o uso de véus islâmicos e lenços na cabeça em estabelecimentos públicos de ensino, esta atitude vai ter que ser repensada.

E em termos de liberdades individuais, seguindo tal lógica, eu posso sair nú para a rua amanhã e ninguém me pode dizer nada porque é uma opção pessoal e nenhuma criatura tem nada a ver com isso, pois a minha atitude não prejudica quem quer que seja nem afecta nada, muito menos se comparado com um ser humano a ser passeado por outro com uma trela ao pescoço como qualquer cão de companhia.

Bom, e se quisermos exagerar, um destes dias vão estar a copular no jardim, como verdadeiros cães, e se alguém se intrometer, a argumentação rebate-se com uma simples violação dos direitos individuais das pessoas.

Curioso é que a empresa de transportes anuiu logo e se prestou a apresentar desculpas ao casal.

Como sabes, não me considero moralista, mas não me conformo com a ideia de ver pessoas a passearem outras pela trela, na rua, algo de que nem um cão devidamente treinado necessita. O que me parece estar em causa não tem nada a ver com liberdade, mas antes a necessidade de chocar o outro.

O que tenho verdadeiramente dificuldade em aceitar é que um rapagão de 25 anos não tenha nenhum problema em andar com outro ser humano, com o qual supostamente tem uma relação – não me atrevo a dizer a que nível – preso pelo pescoço e venha reivindicar direitos…Gostaria de conhecer a opinião dos grupos feministas sobre a matéria e se houver alguns psiquiatras a pronunciarem-se sobre a matéria acho que iríamos todos dormir mais descansados. Uma coisa te garanto: não vou alinhar na moda e não vou sujeitar os outros à exposição daquilo a que posso considerar a minha liberdade individual. Por mais alegrias que isso desse a muita gente…(uma sonora gargalhada).

Um solto abraço.

António Martins Neves