O menino e o gorila

Camarada Fernando,

Um destes recentes dias ouvi uma história, inventada, mas que me deixou a pensar no mudar dos tempos que nos corre como o vento à frente do nariz. E confesso-te, aqui no desabafo destas sentidas palavras, que fiquei baralhado. O narrador tem nove anos e tudo se passou quando a professora lhe pediu uma redacção. Tema livre! E sem que eu entendesse porquê, veio África ao barulho. O rapaz nunca lá pôs os pés, garanto-te.
Como ele ma contou era mais uma menos assim: era uma vez um menino que vivia em Londres (não me perguntes porquê a capital inglesa, que não faço ideia onde foi beber a ideia) com um…gorila. Isso mesmo que leste, um símio daqueles valentes e avantajados que alguns cientistas se pelam por observar – e defender – e que têm aquele ar sério e composto, aparentados connosco ao que dizem os tais investigadores. E viviam assim os dois em plena capital londrina, o menino e o gorila, no meio da urbe, trânsito, stress, confusão!
Vai daí que quando tocou a falar de férias, o rapaz tenha pensado primeiro no camarada de apartamento e nas suas origens.
Contou-me ele que propôs, e o gorila aceitou, irem a África. Quem não gosta de reencontrar as suas raízes?
Viagens marcadas e eles aí vão. Aterram e, naturalmente, ala que a floresta está a nossa espera. E os outros gorilas, os que não imaginavam que existia alguma coisa para além da selva, lá, sem saber que iriam viver a experiência radical de conhecer um patrício urbano, habituado ao “smog”, tecto para dormir, almoço e jantar garantido, nada de se preocupar em calar diariamente o estômago e muito menos uma família tradicional para aturar.
Isto sou eu a dar uns ares à história, mas o essencial é do tal autor pequeno que o passou ao papel sob a forma de redacção, atenção!
Lá se encontrou a gorilada toda. Uma festa! Eram muitos e foram abraços e coboiadas e corridas pelas lianas e conversas até tarde, como é aqui, como é lá, aqui fazemos assim, lá é assado…O gorila londrino sentia-se em casa. Foram dias inesquecíveis, umas férias daquelas para mais tarde recordar. Emoções com fartura, petiscos novos, passatempos inimagináveis, muitos abraços e catadelas. Coisas que fazem qualquer gorila feliz e que não abundam em Londres, pelo menos para um animal assim, a rachar o dia-a-dia com um miúdo, por muito simpático que seja.
Só que tudo o que é bom acaba e as férias também. O gorila começou a retorcer-se, compreensivelmente, que estava no meio do seus, que gostava muito de Londres, mas…afinal era ali que se sentia como um verdadeiro macacão. O miúdo entendeu. Essa parte ele não explicou, mas, se calhar, batido nos documentários da vida selvagem á hora de almoço de domingo na televisão, já tinha interiorizado que um animal assim deve estar é na selva.
E despediram-se. Grandes e sentidos abraços e o pequeno humano lá deixou a família adoptiva das férias e fez-se ao aeroporto para retornar à capital inglesa.
Corria tudo como previsto, estava já até no avião a começar a testar os auscultadores e a bisbilhotar nas costas da cadeira da frente quando começou a ouvir um barulho ensurdecedor no exterior do avião, mas que tinha o seu quê de familiar. Olhou pela janela e pasmou: era o gorila e os parentes todos aos saltos na pista, uma algazarra monumental, murros no peito, a fazerem sinais. Lá foi, para ouvir o que não estava à espera: tinham decidido antes ir todos para Londres e abandonar definitivamente a selva.
E assim foi, contava-me o miúdo. “Foram todos lá para casa”. Os gorilas todos? Numa casa? Quantos eram? “Não sei, não os contei. Mas cabíamos todos”. E corria tudo bem, não havia desentendimentos, aquelas coisas que acontecem com muita gente junta…? “Não, só notava no frigorífico: estava sempre a abarrotar de bananas”. 

Abraços.

António Martins Neves


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